domingo, fevereiro 08, 2026

Alerta de tempestade

O alerta toca. Um apito ensurdecedor tomando conta do espaço inteiro.

Esgoela!

Recobro a consciência pra fora do transe que estava — internamente, observo ao meu redor. Arrasto o pescoço para o lado direito do quarto, olho as paredes beges e sua atmosfera ríspida, a mesa de cabeceira e o livro da vez apoiado sob a madeira cor mogli. A luz do abajur ilumina tudo que está vazio, não que o quarto esteja… mas está abarrotado de nós. Uma linha passa por cima da porta, segue o percurso das paredes, passa por cima da cama, se enrola no travesseiro esquerdo, a frente dá voltas em meus braços que descansam suavemente ao lado de meu corpo. Sentada, eu continuo olhando até onde essa linha vai. Parece não ter fim, ou será que tem?

A luz do abajur pisca uma vez e então ouço um estrondo vindo lá de fora, um trovão soa como se estivesse sentado do lado esquerdo da cama. Assustador!

Ao piscar os olhos noto que a escuridão havia se instalado. A energia acabou? — Verdade, o alerta!

A janela que já estava entreaberta me dá visão para as árvores que se mexem aflitas do lado de fora, ouço o uivar nada sutil do vento que a balança, ouso dizer que balance até as paredes.

Eu me levanto em meio aos embaraços e nós espalhados pelo quarto, ando lentamente — afinal, é domingo, até a cozinha. Reviro os armários em busca de uma vela para iluminar o quarto e me deixar ler um livro, já que não consigo assistir nada na TV e nem scrollar o celular que está sem bateria. Na gaveta tem: pano de prato com bordados em vermelho, descanso de copo (um de cada cor), bucha de limpeza nova, e lá no fundo, encontro as velas. Duas. Brancas… dessas que todo mundo tem em casa para situações de emergência. Isso ainda é comum?

O isqueiro estava ao lado do fogão, então foi fácil encontra-lo. Antes de voltar ao quarto peguei também um pires para fixar a vela. No caminho entre a cozinha e a sala ouço a chuva cair, brusca e latente. O alarme era sobre uma tempestade que se aproximava.

Bom, ela chegou e me causa calafrios.

Continuo meu caminho até o quarto, e não estranho… mas a linha está por toda parte. Enrolada na TV, no pote de ração da cachorra, amarrada em meu chinelo… De novo sentada na cama.

Atrito a roda do isqueiro e então a faísca aparece e eu consigo acender o pavio da vela, inclino-a sobre o pires e deixo pingar. Uma, duas, três gotas de cera quente. Reposiciono rapidamente a vela em cima dessas gotas e a fixo ali.

O pires é logo colocado em cima da mesa de cabeceira ao lado da cama e lá a vela permanece, iluminando o ambiente — e meus pensamentos. Meu objetivo inicial era ler o livro, mas vou deixar pra depois.

Eu queria terminar aquele projeto no computador, mas a energia ainda não voltou.

Tentei dormir, mas o sono não vem porque ainda penso que poderia estar fazendo outra coisa.

E eu permaneço aqui, me afogando nos nós que estão se formando em volta do meu pescoço. Pensamento após pensamento. Mais uma volta e me questiono — será que eu consigo sair disso?

Imóvel e sem ar, movo os olhos para o lado pra me certificar de que não fecharam as janelas. Não há ar e nem espaço vazio, mas o engraçado é que esse quarto só tem uma cama e duas mesas de cabeceira, eu sei que há espaço aqui.

Os minutos passaram correndo mas dentro de mim foram vagarosos e ensurdecedores.

São seis da tarde e eu decido tentar acender o abajur: a luz quase cegou meus olhos — finalmente!

Mas, pensando bem, enquanto eu voltava da cozinha antes de acender as velas, acho que as luzes da sala já estavam acesas.

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Um prédio em (in)finita construção

E se eu pudesse te trazer pra perto? Tão perto que colasse sua pele na minha o suficiente pra que a nossa respiração entrasse em sincronia  — meu Deus, e se eu pudesse? 

E se eu pudesse, numa noite chuvosa qualquer de verão, contar-te o que aflige meus sentidos e que revira a minha cabeça? 

E se eu pudesse, meu amor?

E se eu pudesse te mostrar cada milímetro da minha alma e ego… o ralado da infância e as histórias que ficaram escondidas dentro de quartos que eu criei — bem aqui, no peito, e nunca deixei ninguém entrar.

E se eu pudesse, você aceitaria ficar?

Mas meu amor, o engraçado - e gracioso de tudo isso, é que eu posso. E eu faço.

Com a sua escolha de permanecer eu continuo sendo. Eu mesma, ou algo próximo disso. Eu continuo buscando ser e te expressando como é amar alguém que constantemente busca completar-se de si, mesmo tendo você.

quinta-feira, janeiro 29, 2026

A (real) meta de 2026.

A vida é além. E sempre será.

A vida é além do close-up certo com o cenário bem organizado. A vida é a mesa da ceia atrasada. O som que tocava músicas que não agradavam a todos.

A vida é o fogo de artifício que não urgiu pela chuva e é também a risada da família ao contar uma piada que todo mundo da mesa já sabia o desfecho.

Ela é a chuva de verão durante aquela comemoração importante, é o calor, carinho e aconchego ao receber o outro de coração aberto.

A vida é inédita, apesar de muitas vezes ser óbvia. Mas o óbvio quase sempre nos surpreende.

Que os abraços continuem sendo sinceros, confortáveis e reais.

E que 2026 comece com integridade e esperança.

quarta-feira, agosto 28, 2019

Você tem vida saindo de si?

Quando você se deixa de um lado para o outro, vai sentindo e se deixando decidir da maneira mais pura – e sincera, de onde começa a sua vontade. E vai abdicando aos poucos das restrições criadas, involuntariamente, ao redor do mundo pessoal e cultural na nossa mente.
E vai retirando rótulos que intitulam sensações que nem sequer conseguimos ainda reconhecer, mas enquanto continuarmos correndo incessantemente a procura de respostas cabais tudo que fazemos é deixar-nos pra trás, ao avesso.
Esse avesso é a vida, e a vida que nos transborda é arte. A arte de sentir prazer ao desvelar-nos dentro da luz e escuridão que somos.
E a gente vai deixando um pouco dessa vitalidade por aí.
No céu,
no sopro,
no outro,
no corpo,
como pensamento, toque ou no ecoar suave do timbre da voz.
Você começa a sentir o sangue percorrendo por cada canto do corpo, fortalecendo e finalmente tirando-nos a lucidez racional – se é que é tão racional assim. Percebe que se perder, nem é tão desesperador, talvez até um pouco revigorante, nos faz descartar as certezas pra oferecer o palco para nossos sentimentos.
Enquanto esse processo acontece, a gente vive e deixa toda essa vida transbordar... No recitar de uma poesia, na ponta do pincel ou até num olhar reflexivo pra dentro de nós mesmos.

domingo, agosto 05, 2018

Incêndio.


Você entra pela porta da frente.
É o único jeito de me encontrar. Parece surpreso, corpo meio bambo, sua boca ansiando-me. Não consigo encara-lo, só sei sentir o quanto meu corpo se choca dentro dos seus braços, em um abraço fervendo, pulsando.

Só quero me afundar em você.

Não preciso nem calar a tua boca, afinal, prefere mordiscar cada milímetro da epiderme quente em te oferecer a única coisa que eu posso oferecer agora. A única coisa que eu quero te oferecer agora.

Cê nem entrou e já te quero no meu quarto. Agora. Na sacada? Na escada? Bom, na mesa daquele bar.

Enterro meus dedos em teu cabelo, são macios como quando viajo por seu corpo todo. Empurro você pra qualquer espaço livre do quarto.

Te olhar e desejar. Suas mãos perpassando o pescoço, devagar, sobre os seios, cintura e segurando firme a minha coxa colada em você.
E na cama a gente se junta. – Caralho! Só consigo pensar em como odeio te ver vestido. Já em cima arranco suas roupas, como se não tivéssemos tempo.

Bem, não temos muito tempo e eu detesto isso.

Eu me afogo em você, e me permito explorar cada pedaço teu. Começo pelo seu pescoço, respirando devagar, desço mais devagar ainda enquanto você acaricia todos os lugares que suas mãos conseguem alcançar.

Caminho lentamente entre o ombro, peito, barriga. Eu desceria mais.

Preciso de uma pausa pra voltar a beijar sua boca. Seus lábios saborosos feito açúcar, mas tem um gosto amargo no final, e você sabe o porquê. 

Tô perdendo o controle de mim e você gosta disso. Entrelaça meu cabelo em tua mão e puxa devagar, me carrega, me encaixa. Me faz perder mais do que o controle, você me faz perder a cabeça.

Sempre quero te sentir. Sentir o gosto de cada gota de suor enquanto minha língua percorre seu corpo, quente, naquele momento, meu.

Suas mãos e o estalar em todo lugar.
Devagar.

Tem feito frio lá fora, as janelas ficaram embaçadas, e é por isso que amo como você faz faísca e logo depois faz tudo pegar fogo. – Meu deus! Porque quando você chega minhas madrugadas viram dias ardentes, é... Você é o inferno.
O desejo borbulha feito o pecado enquanto você me devora e eu deixo essa merda toda queimar.
Há chamas por todos os cantos.

Eu deixo pegar fogo e ele se alastra pelo nosso corpo que só se separa por segundos.
Um ou dois segundos.

Desenho bruscamente a nossa noite em suas costas, fincando as unhas em busca de extravasar o prazer. Aperto-te contra meu corpo, mais rápido, eu não quero que essa madrugada clareie.

Em meio ao desespero você me olha e enquanto te encaro, o pouco que consigo, afinal, têm outras coisas me tirando a atenção. Enquanto você me encara eu lembro como é se sentir completamente em êxtase.

Você me explora nua.
E eu sou o que sou.
Crua.

Você acha que me conhece pouco, mas me conhece tanto que nem eu sei se devo me preocupar mais.
Me apoiando em você, enquanto você se aprofunda em mim, sussurrando no meu ouvido, mais rápido. Suas mãos no meu pescoço, sua boca que eu não consigo me distanciar.

Te olho e desejo te ver na minha cama, mais do que só hoje. Eu desejo mais ainda te ter entre as minhas pernas, além de dentro da minha cabeça.

Só quero que você me deixe em paz.

Tu faz tudo isso tão bem, e eu te odeio por isso.
Quando a gente acaba, ou dá uma pausa, porque pra gente, a nossa transa nunca tem fim...quando a gente se satisfaz você me abraça. Cê me envolve tão bem em meio a sua inconstância de ser o que quer quando quer.

De chegar quando quer. E de ir quando se envolve demais.

Eu te odeio por isso, e mesmo assim me permito queimar em meio a esse abraço do diabo e nosso quarto em chamas, enquanto o pecado me consome por aceitar te ter só mais essa noite.

quinta-feira, junho 28, 2018

Passeio pelos becos desse mundo.



Nas noites que eu consigo dormir, tenho sonhos. E lembro-me de todos eles, sejam eles bons desses que me fazem acordar sorrindo, ou até mesmo dos ruins que me obrigam a despertar no meio da noite receosa.

Passei a questiona-los frequentemente. Questionar a veracidade das sensações e sentimentos que nele são penetrados. A única coisa real é o que sentimos enquanto estamos afogados em nós mesmos num sono profundo e gostoso?
Pra onde vamos enquanto sonhamos? Pra fora? Ou pra parte mais crua e inconsciente de nós?

Prefiro pensar na junção mais do que harmônica desses dois aspectos. Como se ao adormecer eu saísse por aí, conhecendo o mundo e pessoas. Bares e rodas de samba. E no meio desse passeio um tanto quanto alucinante vou me reconhecendo.

E com os sentimentos que são finalmente exteriorizados e retirados de mim, nem sempre da forma mais sutil, mas há quem diga que somos afogados por algumas ondas durante a vida.

Em meio aos meus sonhos estive por becos escuros, tão escuros que cai em buracos, rolei e possas, pisei em muitos ovos e sangrei por esbarrar em vidros, senti a aflição de estar perdido. Perdido decidi sentar e me acalmar, uma hora ou outra o dia teria que clarear.
Choraminguei um bocado, perdi o ar feito criança quando faz birra, e não há nada de errado nisso.

Nessas andanças deixei muita coisa ir, deixei-me livre pra me perdoar, e me aceitar com cada pedaço que estava fora do lugar. Os dias ainda clareiam durante essas caminhadas, tem um sol tão quente igual abraço de mãe.

Encontrei partes minhas no beco, no bar, na praia. Tô organizando a casa toda de novo ao invés de me mudar. E aí eu desperto desses sonhos loucos e indecifráveis, ora sorrindo, ora chateada, mas ultimamente me arrumando.

Tem sensação que não me cabe mais, mesmo eu sendo tão imensa de alma; Tem espaço pra tanta coisa boa, pra erro, acerto, pra mim, incertezas e descrenças; tem espaço pra gente real, que sangra e respira fundo igual eu. Tem tanto espaço que nunca deixarei de me encontrar. De me consertar. De me amar. De ser. Só ser.

quinta-feira, junho 21, 2018

Esbarrei em infinitos.



Como viver depois de ultrapassar tantas vidas?

Têm lágrimas rolando por aqui, elas caem, sem contagem, sem o mínimo de cautela possível. Elas caem e caem sem parar.


Faz dias.
Faz muito tempo que eu ando angustiada e não consigo de jeito nenhum chorar. Sequer uma maldita e salgada lágrima.

Acordo como se as costas doessem tanto que eu mal sinto vontade de levantar. Vejo pela janela o dia maravilhoso e me esforço, espero mais um tempo e acabo me rendendo.

É como se tudo que eu já vivi ainda andasse comigo. A cada segundo, latejando, me lembrando, de tudo, de todos, do toque, do soco, do choro, do jardim que nasceu dentro de mim, até mesmo de quando queimaram tudo. E eu ainda sim acendi e deixei queimar.

Acabo não conseguindo esquecer e eu tento muito. É andar distraído em um momento bom que qualquer pensamento ou lembrança ruim que eu ousar relacionar com alguém cotidiano que minha cabeça explode. Meu estomago embrulha. Tudo revira. E a angustia vem.

Como é pra você viver depois de ultrapassar vidas?
Depois de magoar. De desapontar. De errar.
Como você vive?

Eu entendo claramente que erramos que estamos uma vida toda pra aprender a evoluir, se é que evolução existe. Mas estamos em busca de menos erros, de mais aceitação, de mais empatia.
Como encarar e aceitar os erros quando eles ainda gritam?

Ecoam como os gritos que eu não gritei. E eu aposto que vão continuar ecoando na minha cabeça enquanto eu tento insistentemente tira-los daqui.

Esse talvez seja o maldito castigo de sentir muito. E eu sinto muito, me desculpe.

Já pensou que o seu bom dia pode ter mudado o dia de alguém? E que só de te ver sorrir, alguém sorriu de volta? É isso que eu falo sobre carregar fardos de vidas que ultrapassamos.

Nos envolvemos o tempo todo, sem sequer notarmos isso. E é gostoso e lindo, desde que seja saudável.

Bom, talvez o segredo esteja em dar o seu melhor. Mesmo que o seu melhor naquele momento seja o pior de alguém, foi o que você pode fazer. Podemos chamar isso de erro? O melhor pra o pior de alguém?

Tente dar o seu melhor.

Ser sincero, sem ferir. Afinal, falar bom dia quando você não está tão bem não é algo tão ruim assim? Entende? Não é se abster de dias ruins, é só, saber lidar com eles enquanto se relaciona com outrem.
Talvez seja desligar-se um pouco de cada pedacinho seu que esbarrou em alguém. É ouvir aquela música que te lembrava aquela pessoa que foi embora, porque ela simplesmente precisava ir, é ouvir a música e não sentir como se estivessem esfaqueando seu peito umas quarenta e quatro vezes.

É tornar o processo de caminhar, libertador, mesmo que pra fazer isso, tenha que enfrentar momentos difíceis. Afinal, quando eu passo pela sua rua, lembro de quando brincávamos de amarelinha e eu não conseguia pular o inferno, passávamos tardes rindo, e foi bom. É o que eu preciso guardar pra mim hoje.

Como é maravilhoso lembrar de você olhando pra mim e sorrindo, como se a nossa noite nunca fosse acabar. Lembrar mesmo que superficialmente dos seus dedos entrarem em contanto com as minhas costas e dai partirem acariciando toda a silhueta.

Meu deus! E o carnaval de uns anos passados, a bateria passando o calor subindo, os pés dançantes e mãos soltas ao ar. Dançávamos, eu e elas, como se aquele momento fosse único, e foi. Observava cada gargalhada como se fossem as últimas, e sentia sua energia, onde meu corpo estremeceu; e é como se aquele tempo com as mulheres mais poderosas do meu mundo, não pudesse ser contado.


E sim, é doloroso aceitar que pessoas queiram ir embora. Mas elas vão, e sei que eu fui embora muitas vezes. Eu fui embora sem olhar pra traz. Deixei pessoas falando sozinhas. Fechei a porta na cara de amigos em épocas conturbadas.  

Eu já fui pior e talvez não tenha pensado em ser melhor.

E eu fico me perguntando nos momentos em que minhas costas pesam, em que o barulho não acaba ou enquanto o silencio me enlouquece: como as pessoas vivem depois de terem esbarrado por mim?

Eu continuo seguindo em frente, mesmo com dias mais sombrios ou alguns chatos; há momentos bons, tão bons que me fazem querer continuar vivendo e esbarrando em outras vidas, outros mundos; Talvez seja isso, viver seja essa colisão louca entre o início de tudo, em cada universo. Essa ânsia e coragem em voar e cair, e levantar porque ainda temos forças o suficiente pra saber que erros não se consertam sem muita observação e aprendizado.

E hoje, mesmo com essas lágrimas que caem, e caem queimando, estou feliz e disposta a esbarrar em infinitos mundos, e espero, que um dia, esses mundos estejam dispostos a se esbarrarem comigo por aí.  

segunda-feira, junho 11, 2018

Dance comigo.



Depois daquela tarde ao qual pensara em todas as bobagens e mais algumas besteiras, decidi acordar Fred. O dia estava escurecendo e eu não cabia mais em meu desconforto. Mas, –Ó meu Deus! Não tinha como não sorrir ao olhar pra ele. Abriu os olhos e estava meio atrapalhado com o sono que não o deixava em paz, mas mesmo assim, ele me transmitia essa serenidade.

Decidiu dirigir até o hostel mais próximo, o qual ficaríamos por alguns dias pra conhecer a cidade, ou só porque não estávamos preocupados com o mundo casual mesmo.

Por incrível que pareça estávamos com o quarto só pra nós, claro, e mais alguns beliches vazios. Eu só queria me desligar, feito uma boneca dessas com interruptor, on, off, on, off, pena que eu sou apenas uma mulher com uma série de medos que perturbam em meio aos meus silêncios.

Fred percebeu em algum momento que meus olhos desviavam os dele, mesmo que involuntariamente. Ligou uma caixinha de som que tínhamos pego no meu apartamento e começou a me encarar, mexendo a perna direita, depois a esquerda, e juntou com um gingado, se é que posso chamar assim, porque me fez gargalhar.

- Venha dançar comigo.


Juro que a última coisa que queria fazer era dançar, era fingir que as coisas andavam nos conformes aqui dentro. Mas seu sorriso era tão sincero, tua vontade de me fazer sentir melhor estampava cada dente daquela boca maravilhosa.

Não tinha como deixá-lo só nessa. Então comecei a mexer o quadril, deixá-lo solto como se o ar o levasse da esquerda pra direita, leve e natural. Fechei os olhos e levantei os braços como se eu pudesse tocar as estrelas, como se eu pudesse finalmente descartar os meus problemas e eles flutuassem pra longe com os pássaros e as nuvens.

Ninguém merecia uma onda de pensamentos negativos, não aqui, não assim. Desejávamos o mundo, e eu o desejava por inteiro desde então.

Deixei pouco a pouco a euforia encher meu corpo de vontade de ser maior e melhor. Estávamos cansados da viagem, entre cochilos e outros amassos, mas depois que a música começou a tocar decidi me entregar a ela.

Deixe-me levar. Pelo som e por seus toques, onde cada conflito e esbarro se desenrolava em beijos desastrosos e deliciosos. É como estar plenamente satisfeita com a reciprocidade do momento, o qual quanto mais me doo mais ele se dá, pra mim e por mim.

Fred nunca me entendera por completo, e aliás, nem eu mesma, mas estávamos aprendendo juntos a intensidade de um pro outro, caminhando devagar, lado a lado, ainda que nem metade do que temos pra viver tenha sido descoberto, mas quem se importa?

Apenas feche os olhos e ouça, ouça a música além das notas musicais, além do que a letra deseja transparecer, distante do que o timbre o toca como toque; e quando eu digo para ouvir, sinta, sinta cada parte do seu corpo conversar e mexer contigo; sinta cada milímetro da pele exalar, arrepiar... Os pés batem num ritmo que existe dentro da mente, a sensação passa, passa pelo quadril o fazendo rebolar delicadamente no seu ritmo, expondo sua áurea. Os braços elevam-se, a cabeça só sincroniza, e quando perceber todo o seu corpo e alma estarão em harmonia.


 Eu só não quero que essa noite acabe e que esse sorriso saia de meu rosto. Se eu pudesse fotografar um momento, seria esse, pela intimidade que criamos em um pequeno espaço de tempo.

Sabe, fico me perguntando quem é que inventou essa maldição que é o tempo, que não nos deixa viver sós, sem preocupações e limitações. Que se exploda o tempo, eu só quero deixar por cada canto desse universo a sensação de ser preenchida, a marca de ser mais uma no mundo, mais uma mulher que conseguiu esquecer-se de só existir. E ter comigo até o fim –seja lá se é que existe, além da felicidade, ter a satisfação de ser a mulher que nasci pra ser, apesar dos erros, repleta de luz.

E desde que trombei com Fred a caminhada tem sido mais leve, como se eu acrescentasse algo na mochila que fizesse tudo que é passado sumir. Vivíamos uma loucura, pode parecer clichê, mas eu estava disposta a enlouquecer por uma vida inteira.

terça-feira, abril 03, 2018

Aos poucos. Do pouco que somos.


É preciso entender.
Talvez seja mesmo preciso entender que estamos o tempo todo a crescer.
Criados para errarmos, evoluídos para sermos muito do nada que aprendemos aos poucos a construir. Construir o nada?
Sim

É preciso entender que apesar de estarmos sozinhos, ainda sim, não estamos. Não precisamos estar, me entende?

Entenda que cada dor é única, que cada impasse é particular e cada crise é extremamente o final do que nascemos pra achar que seria o início.

Conversa comigo e tenta entender.


Entender que o amanhecer traz sim uma nova possibilidade.
E não crer na esperança é um suicídio indiretamente grotesco.
É claro que vai doer, e ora, querido... estamos tão perdidos.
Não falo isso da boca pra fora, não falo isso pra amenizar. Falo porque é, e quero que entenda.
Entenda que estamos a morrer desde o choro do nascimento e que absurdo, não? Que absurdo estar no mundo sabendo que amanhã talvez eu possa não estar aqui.

Não se diminua. Não se inferiorize.

Isso rasga. Rasga e acaba com a ânsia que temos de ser melhores todos os dias - mesmo que isso não aconteça sempre, na verdade, isso acontece quase nunca.

Tô aqui, sentada pensando no que conversamos.
Tô sentada tentando te ajudar da única maneira que eu sei me expressar - escrevendo.

Não é suficiente, não somos suficientes, eu nunca fui o suficiente.
Mas só respira fundo, respira fundo quantas vezes você achar necessário. Mantém os olhos cerrados quando estiver inconformado e infeliz, e chora. Sinta tudo o que tiver de sentir, só não vale sentir-se pouco, porque não somos pouco.

Provavelmente você não entenda o que se passa na minha mente, na realidade, não entende muito o que se passa na sua.

Eu sei que você não quer me deixar entrar.

Mas eu espero, sinceramente, que você enxergue que esse potencial todo que você tem, e tem mesmo, não é concretizado apenas pelas possibilidades que tivemos e fracassamos.

Acreditarmos em alguém, não é um erro nosso, e não suprirmos as expectativas também não. É nessa hora que você tem que levantar a cabeça -pesada do travesseiro e seguir. Por qual caminho? Não sei te dizer, mas eu sei que você pode tudo, e vai conseguir.

Você mesmo me disse "Estamos aqui e podemos ser tudo e fazer tudo."

Faça. Aos poucos. No seu tempo. Independente de qual for seu tempo.

Um passo de cada vez.
Não se afobe.
Desanimar é preciso.
Mas reanimar a alma é ainda mais necessário.
Você vai sentir quando for a hora.
Todos temos nossa hora.
E eu sei que a sua... eu espero... que você entenda o quanto é capaz de lidar com tudo que te aflige, assusta, com tudo que você acha fracassar, mas não.

Você não fracassou.

terça-feira, janeiro 23, 2018

Espanto.


A noite de hoje está tão estrelada, e a luz que elas refletem tão mais reluzente em meio a essa escuridão que me encontro no quintal de casa.

Estive pensando.
Pensei por dias.

Percebi o quanto ainda me sinto intrigada a respeito do Universo.

Galáxia por galáxia.
Átomos e poeira cósmica.

Sobre os dias que podem simplesmente de uma hora pra outra não clarear mais.


Estou tão enferrujada nisso, nessa ideia cômoda e repetitiva de que o mundo não tem nada mais a oferecer, e que a Era Niilista realmente chegou. Há quanto tempo me vendaram? Há quanto tempo me ceguei? Nada traz interesse, nada parece me excitar como a primeira vez que senti a água salgada molhar meus pés.

Às vezes eu desconfio que esse encanto ainda passeie por minhas veias, fervendo, esperando por minha permissão.

Essa coisa de se lembrar, tentar enxergar que cada sensação é única, feito essas estrelas que nunca terão o mesmo brilho de hoje. E que eu nunca serei a mesma de agora ao se passarem os segundos.


Observar a vida com a mesma empolgação de uma criança – Com os olhos que saltam e não querem nunca dormir, afinal, tudo é tão inovador e diferente. Sentir prazer em viver, experienciar como se fosse a primeira vez – E diga-se de passagem, é!

A primeira vez que sinto o aroma do teu perfume. Ou no chocar de nosso toque. Até aquela sensação de quando deixo a chuva deslizar lentamente por meus cabelos.

Vivenciar e me surpreender.

Sem pré-julgamentos, aos olhos de quem é a cada segundo, uma nova pessoa.


Eu preciso reaprender que aprender a sentir faz parte de crescer e me admirar com o todo ao qual desconsidero. Permitir-se sentir é reconsiderar que a felicidade ainda é possível.

E quer saber? Que sensação maravilhosa ao contemplar essa noite.

terça-feira, janeiro 16, 2018

Onde mora sua alma?


Eu viajei longos dias, andei por altas horas, sol e chuva passaram por aqui e por lá. Eu continuo viajando, todos os dias enquanto inspiro e expiro. Não consigo entender quando a moça da padaria dizia que encontrou seu lar – Dona Maria acabou de se mudar de cidade, esquecer algumas frustrações e recomeçar. Mas eu continuo não entendendo, como funciona o esquema sentir-se parte de um só lugar, é isso que me incomoda.
Primeiro a perna esquerda, depois a direita, onde uns passos são rápidos e outros mais preguiçosos; ando pensando – eu nunca me satisfaço, essa é a sensação de não ter um único e exclusivo lar. Sinto-me como parte desse todo, compadecendo com a natureza de todos os magníficos lugares.
O lar é feito um estado de espírito, ou talvez da alma. Afinal, não é sobre isso? Sobre uma insatisfação tão intensa que chega a tornar a alma num nômade. A sensação de novas terras tocando os pés, das praias que nunca tem o mesmo horizonte. De cada onda única que me faz flutuar. Já sentiram? A plenitude na sombra da mangueira da casa da vovó, o vento fresco da cidade onde meus tios moram.
O lar é essa vida constante e inconstante. É a sensação de prazer que te faz fechar os olhos e se sentir, finalmente em casa, onde sou eu mesmo. O mundo é meu lar, a natureza, o por do sol, a Lua minguante, e eu faço parte desse todo.
Meu lar tem essa sensação maravilhosa de balançar os cabelos ao vento, de apreciar cada gotinha da chuva que desce as costas enquanto eu corro pra não perder o ônibus. Minha casa é como meus olhos sorriem ao te ver deitado e colado em mim. A euforia de dançar como se a noite nunca fosse acabar ou do abraço quente num dia um pouco desagradável.
E então todos os dias quando amanhece, posso perceber esse encaixe da vida com a minha essência, onde reconheço que sou meu próprio lar, dentro do que me excita e incita a ser melhor e finalmente sentir que estou vivo. 


Dia a dia, passo a passo.

quarta-feira, dezembro 06, 2017

Me devolve

[ Leia ao som de Chet Faker - Talk Is Cheap ]


Às vezes me sinto despedaçada 
E que cada pedaço ficou perdido por aí na vida de alguém 
Até porque são irrelevantes, assim como o que eu sou hoje 
As sensações ficaram por aí 
Porque eu não sinto nada além de um imenso vazio 
Na verdade, costumo sentir dor e angústia 
Alguns breves momentos de euforia 
Mas tão breves quanto o passar dos minutos 
É verdade, eu não deveria me sentir 
Não como se eu fosse um lixo 
Eu tento 
Ainda tento 
Preciso me recompor 
Eu quero ser inteira, lembro do gosto
Eu não me importaria em morrer de rir 
Eu não me importaria em deixar todo esse nó disfarçado de cicatriz 
Eu não me importaria em deixar pra trás 
Mas eu te imploro

Me ajuda! 
Apaga meu número 
Esquece o sabor da minha pele 
Troca de calçada se me ver por aí 
Por favor, 
Finge que você não carrega nenhum dos meus pedaços 
Me devolve!
Me devolve pra mim 
Ou me deixa em qualquer lugar 
Em qualquer esquina na qual você nunca mais pretenda voltar.

segunda-feira, novembro 06, 2017

Eternamente jovens



Você enche os pulmões do maldito ar que os destrói aos poucos
Fecha os olhos e deseja que a noite chegue pra poder deitar na cama, e por lá ficar
Como esquece?
Que somos eternos.
Vive esperando por situações vazias que não exigem responsabilidades
Esquecemos que somos eternos
Pra alguém já fomos, podemos ainda ser
Eternos naquela fotografia que nos faz gargalhar
Nas poças que pulamos naquela quarta feira chuvosa
Infinitos em cada entrelinha desse texto
e ainda naquela música que costumávamos cantar bêbados lá no porto
E como nos esquecemos?
Que cada um deixa-se por aí
Num legado
Lembrança
Em pedaços
Nessa nossa juventude inconsequente
E gloriosa
Que chegamos a limitar ao questionarmos sobre o que nos vale realmente a pena...
Podemos esquecer isso
E valorizar o instante
enquanto ainda estamos por aqui
Presentes
correndo por essas ruas de pedra
Enxergando da janela esse céu nublado que nos emociona
Porque podemos
E somos
Infinitos na carícia que passeia sua silhueta
Dentro os sonhos que nos fizeram acordar na madrugada
Vamos
Sentir o gosto das bocas que já provamos
Daqueles corpos que colidiram
Dos abraços inexplicáveis
Entende?
Não há como esquecermos de nos sentirmos infinitos
Porque é na verdade
o único propósito que nos mantém vivos eternamente
nessa poeira cósmica e maré quântica
que é o Universo.

quarta-feira, outubro 18, 2017

Cheio de nós





Os dias andam devagar, devagarinho
Mesmo em meio ao caos diário
Em meio a essa rotina que nos absorve
Absorve-nos a vontade de sermos tudo que podemos
Tudo o que já somos e não sabemos
Absorve-nos o desejo –e ora quanto desejo!
De nos aventurarmos em cada segundo dessa respiração falha
Nos olhares perdidos
E no tempo que por aí ficaram.
Passa tão devagar que o perco!
Debaixo da cama já procurei
Dentre os livros só vi poeira
Absorvo-me
Da maneira mais natural e talvez prazerosa
Já que procuramos tanto por algo que nem sequer sabemos o que é...
E quem sabe procurando percebamos
Que nos absorvemos, nós mesmos

Na esperança de ao saciarmos cheio de nós, encontrarmos o que não estávamos à procura.

quarta-feira, setembro 06, 2017

Tic tac



O tic tac do relógio me acorda todas as noites

Ora, todas as noites não, mas há algumas noites tenho tido péssimos sonos, sonhos, sabe? Até às minhas costas doem, se é o peso? Talvez um mau jeito...

Quando acordo pela manhã, um pouco exausta por uma noite mal dormida, encaro o teto branco com alguns raios de sol que insistem em passar pela cortina. Eu fico ali, deitada por mais uma ou duas horas recompondo.

O tic tac do relógio não para.

Uma hora.
Duas.

Fico me perguntando quanto tempo faz que eu vivo os mesmos dias, em dias diferentes – de acordo com o calendário. É feito um dejavú dos últimos meses, deveras assustador. Ando pelos mesmos lugares, bebo as mesmas bebidas, sinto falta dos mesmos sabores. Sinto as mesmas sensações e o curioso peso de uma bagagem imensa nos ombros.

Ao abrir o chuveiro as gotas caem bruscas, perpassando por todo o corpo, lavando a epiderme como quem expulsa de casa o próprio ser, o dono. Fecho meus olhos e sinto. Sinto cair gota por gota molhando meus cabelos, as rugas da testa e as bochechas rechonchudas. E leva dos olhos, o gosto salgado que desce devagar. A água passeia pelos ombros pesados e tensos e parece livra-los, por um só segundo dessa sensação que nem sei ao menos como senti-la, expurga do âmago a angústia, aliviando quente as minhas extremidades frias.

Visto-me e sigo os dias.

Com o tic tac do relógio que nunca ousa parar.

Parece me lembrar a cada minuto que tempo vem a passar, ligeiro feito maresia.

Eu continuo vivendo. Andando, passo a passo, lentos e cautelosos passos, por uma vida apressada que passa por esse coração espremido e doce. Dias quentes, frios e apáticos, tempestades que brotam de manhãs ensolaradas, e o quão pareciam ensolaradas, sentia o ardor de seus raios, sentia o ardor de seus abraços.

Um dia após o outro.

Como se eu realmente soubesse a poção mágica para acabar com o que me aflige. Mas ora, nem sei o que aflige. Então continuo caminhando, a procura do eco que nós mesmos geramos, dos gritos que emitiram minha voz. Das cicatrizes que permanecem e das pessoas que vão embora. Aos poucos cura-se. Aos poucos, com uma dose de cachaça e um aperto de mão.

As coisas não deveriam, mas são.

Planejadas? Talvez, beirando o blefe e frustração.

As coisas não deveriam ser, mas são assim. E elas seguem no tic tac desse relógio que não me deixa dormir e nunca para de girar.