Depois daquela tarde ao qual pensara em
todas as bobagens e mais algumas besteiras, decidi acordar Fred. O dia estava
escurecendo e eu não cabia mais em meu desconforto. Mas, –Ó meu Deus! Não tinha como não
sorrir ao olhar pra ele. Abriu os olhos e estava meio atrapalhado com o sono
que não o deixava em paz, mas mesmo assim, ele me transmitia essa serenidade.
Decidiu dirigir até o hostel mais
próximo, o qual ficaríamos por alguns dias pra conhecer a cidade, ou só porque
não estávamos preocupados com o mundo casual mesmo.
Por incrível que pareça estávamos com o
quarto só pra nós, claro, e mais alguns beliches vazios. Eu só queria me
desligar, feito uma boneca dessas com interruptor, on, off, on, off, pena que
eu sou apenas uma mulher com uma série de medos que perturbam em meio aos meus
silêncios.
Fred percebeu em algum momento que meus
olhos desviavam os dele, mesmo que involuntariamente. Ligou uma caixinha de som
que tínhamos pego no meu apartamento e começou a me encarar, mexendo a perna
direita, depois a esquerda, e juntou com um gingado, se é que posso chamar
assim, porque me fez gargalhar.
- Venha dançar comigo.
Juro que a última coisa que queria fazer
era dançar, era fingir que as coisas andavam nos conformes aqui dentro. Mas seu
sorriso era tão sincero, tua vontade de me fazer sentir melhor estampava cada
dente daquela boca maravilhosa.
Não tinha como deixá-lo só nessa. Então
comecei a mexer o quadril, deixá-lo solto como se o ar o levasse da esquerda
pra direita, leve e natural. Fechei os olhos e levantei os braços como se eu
pudesse tocar as estrelas, como se eu pudesse finalmente descartar os meus
problemas e eles flutuassem pra longe com os pássaros e as nuvens.
Ninguém merecia uma onda de pensamentos
negativos, não aqui, não assim. Desejávamos o mundo, e eu o desejava por
inteiro desde então.
Deixei pouco a pouco a euforia encher
meu corpo de vontade de ser maior e melhor. Estávamos cansados da viagem, entre
cochilos e outros amassos, mas depois que a música começou a tocar decidi me
entregar a ela.
Deixe-me levar. Pelo som e por seus
toques, onde cada conflito e esbarro se desenrolava em beijos desastrosos e
deliciosos. É como estar plenamente satisfeita com a reciprocidade do momento,
o qual quanto mais me doo mais ele se dá, pra mim e por mim.
Fred nunca me entendera por completo, e
aliás, nem eu mesma, mas estávamos aprendendo juntos a intensidade de um pro
outro, caminhando devagar, lado a lado, ainda que nem metade do que temos pra
viver tenha sido descoberto, mas quem se importa?
Apenas feche os olhos e ouça, ouça a
música além das notas musicais, além do que a letra deseja transparecer,
distante do que o timbre o toca como toque; e quando eu digo para ouvir, sinta,
sinta cada parte do seu corpo conversar e mexer contigo; sinta cada milímetro
da pele exalar, arrepiar... Os pés batem num ritmo que existe dentro da mente,
a sensação passa, passa pelo quadril o fazendo rebolar delicadamente no seu
ritmo, expondo sua áurea. Os braços elevam-se, a cabeça só sincroniza, e quando
perceber todo o seu corpo e alma estarão em harmonia.
Sabe, fico me perguntando quem é que
inventou essa maldição que é o tempo, que não nos deixa viver sós, sem
preocupações e limitações. Que se exploda o tempo, eu só quero deixar por cada
canto desse universo a sensação de ser preenchida, a marca de ser mais uma no
mundo, mais uma mulher que conseguiu esquecer-se de só existir. E ter comigo
até o fim –seja lá se é que existe, além da felicidade, ter a satisfação de ser
a mulher que nasci pra ser, apesar dos erros, repleta de luz.
E desde que trombei com Fred a caminhada
tem sido mais leve, como se eu acrescentasse algo na mochila que fizesse tudo
que é passado sumir. Vivíamos uma loucura, pode parecer clichê, mas eu estava
disposta a enlouquecer por uma vida inteira.


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