segunda-feira, junho 11, 2018

Dance comigo.



Depois daquela tarde ao qual pensara em todas as bobagens e mais algumas besteiras, decidi acordar Fred. O dia estava escurecendo e eu não cabia mais em meu desconforto. Mas, –Ó meu Deus! Não tinha como não sorrir ao olhar pra ele. Abriu os olhos e estava meio atrapalhado com o sono que não o deixava em paz, mas mesmo assim, ele me transmitia essa serenidade.

Decidiu dirigir até o hostel mais próximo, o qual ficaríamos por alguns dias pra conhecer a cidade, ou só porque não estávamos preocupados com o mundo casual mesmo.

Por incrível que pareça estávamos com o quarto só pra nós, claro, e mais alguns beliches vazios. Eu só queria me desligar, feito uma boneca dessas com interruptor, on, off, on, off, pena que eu sou apenas uma mulher com uma série de medos que perturbam em meio aos meus silêncios.

Fred percebeu em algum momento que meus olhos desviavam os dele, mesmo que involuntariamente. Ligou uma caixinha de som que tínhamos pego no meu apartamento e começou a me encarar, mexendo a perna direita, depois a esquerda, e juntou com um gingado, se é que posso chamar assim, porque me fez gargalhar.

- Venha dançar comigo.


Juro que a última coisa que queria fazer era dançar, era fingir que as coisas andavam nos conformes aqui dentro. Mas seu sorriso era tão sincero, tua vontade de me fazer sentir melhor estampava cada dente daquela boca maravilhosa.

Não tinha como deixá-lo só nessa. Então comecei a mexer o quadril, deixá-lo solto como se o ar o levasse da esquerda pra direita, leve e natural. Fechei os olhos e levantei os braços como se eu pudesse tocar as estrelas, como se eu pudesse finalmente descartar os meus problemas e eles flutuassem pra longe com os pássaros e as nuvens.

Ninguém merecia uma onda de pensamentos negativos, não aqui, não assim. Desejávamos o mundo, e eu o desejava por inteiro desde então.

Deixei pouco a pouco a euforia encher meu corpo de vontade de ser maior e melhor. Estávamos cansados da viagem, entre cochilos e outros amassos, mas depois que a música começou a tocar decidi me entregar a ela.

Deixe-me levar. Pelo som e por seus toques, onde cada conflito e esbarro se desenrolava em beijos desastrosos e deliciosos. É como estar plenamente satisfeita com a reciprocidade do momento, o qual quanto mais me doo mais ele se dá, pra mim e por mim.

Fred nunca me entendera por completo, e aliás, nem eu mesma, mas estávamos aprendendo juntos a intensidade de um pro outro, caminhando devagar, lado a lado, ainda que nem metade do que temos pra viver tenha sido descoberto, mas quem se importa?

Apenas feche os olhos e ouça, ouça a música além das notas musicais, além do que a letra deseja transparecer, distante do que o timbre o toca como toque; e quando eu digo para ouvir, sinta, sinta cada parte do seu corpo conversar e mexer contigo; sinta cada milímetro da pele exalar, arrepiar... Os pés batem num ritmo que existe dentro da mente, a sensação passa, passa pelo quadril o fazendo rebolar delicadamente no seu ritmo, expondo sua áurea. Os braços elevam-se, a cabeça só sincroniza, e quando perceber todo o seu corpo e alma estarão em harmonia.


 Eu só não quero que essa noite acabe e que esse sorriso saia de meu rosto. Se eu pudesse fotografar um momento, seria esse, pela intimidade que criamos em um pequeno espaço de tempo.

Sabe, fico me perguntando quem é que inventou essa maldição que é o tempo, que não nos deixa viver sós, sem preocupações e limitações. Que se exploda o tempo, eu só quero deixar por cada canto desse universo a sensação de ser preenchida, a marca de ser mais uma no mundo, mais uma mulher que conseguiu esquecer-se de só existir. E ter comigo até o fim –seja lá se é que existe, além da felicidade, ter a satisfação de ser a mulher que nasci pra ser, apesar dos erros, repleta de luz.

E desde que trombei com Fred a caminhada tem sido mais leve, como se eu acrescentasse algo na mochila que fizesse tudo que é passado sumir. Vivíamos uma loucura, pode parecer clichê, mas eu estava disposta a enlouquecer por uma vida inteira.

Nenhum comentário:

Postar um comentário