O alerta toca. Um apito ensurdecedor tomando conta do espaço inteiro.
Esgoela!
Recobro a consciência pra fora do transe que estava — internamente, observo ao meu redor. Arrasto o pescoço para o lado direito do quarto, olho as paredes beges e sua atmosfera ríspida, a mesa de cabeceira e o livro da vez apoiado sob a madeira cor mogli. A luz do abajur ilumina tudo que está vazio, não que o quarto esteja… mas está abarrotado de nós. Uma linha passa por cima da porta, segue o percurso das paredes, passa por cima da cama, se enrola no travesseiro esquerdo, a frente dá voltas em meus braços que descansam suavemente ao lado de meu corpo. Sentada, eu continuo olhando até onde essa linha vai. Parece não ter fim, ou será que tem?
A luz do abajur pisca uma vez e então ouço um estrondo vindo lá de fora, um trovão soa como se estivesse sentado do lado esquerdo da cama. Assustador!
Ao piscar os olhos noto que a escuridão havia se instalado. A energia acabou? — Verdade, o alerta!
A janela que já estava entreaberta me dá visão para as árvores que se mexem aflitas do lado de fora, ouço o uivar nada sutil do vento que a balança, ouso dizer que balance até as paredes.
Eu me levanto em meio aos embaraços e nós espalhados pelo quarto, ando lentamente — afinal, é domingo, até a cozinha. Reviro os armários em busca de uma vela para iluminar o quarto e me deixar ler um livro, já que não consigo assistir nada na TV e nem scrollar o celular que está sem bateria. Na gaveta tem: pano de prato com bordados em vermelho, descanso de copo (um de cada cor), bucha de limpeza nova, e lá no fundo, encontro as velas. Duas. Brancas… dessas que todo mundo tem em casa para situações de emergência. Isso ainda é comum?
O isqueiro estava ao lado do fogão, então foi fácil encontra-lo. Antes de voltar ao quarto peguei também um pires para fixar a vela. No caminho entre a cozinha e a sala ouço a chuva cair, brusca e latente. O alarme era sobre uma tempestade que se aproximava.
Bom, ela chegou e me causa calafrios.
Continuo meu caminho até o quarto, e não estranho… mas a linha está por toda parte. Enrolada na TV, no pote de ração da cachorra, amarrada em meu chinelo… De novo sentada na cama.
Atrito a roda do isqueiro e então a faísca aparece e eu consigo acender o pavio da vela, inclino-a sobre o pires e deixo pingar. Uma, duas, três gotas de cera quente. Reposiciono rapidamente a vela em cima dessas gotas e a fixo ali.
O pires é logo colocado em cima da mesa de cabeceira ao lado da cama e lá a vela permanece, iluminando o ambiente — e meus pensamentos. Meu objetivo inicial era ler o livro, mas vou deixar pra depois.
Eu queria terminar aquele projeto no computador, mas a energia ainda não voltou.
Tentei dormir, mas o sono não vem porque ainda penso que poderia estar fazendo outra coisa.
E eu permaneço aqui, me afogando nos nós que estão se formando em volta do meu pescoço. Pensamento após pensamento. Mais uma volta e me questiono — será que eu consigo sair disso?
Imóvel e sem ar, movo os olhos para o lado pra me certificar de que não fecharam as janelas. Não há ar e nem espaço vazio, mas o engraçado é que esse quarto só tem uma cama e duas mesas de cabeceira, eu sei que há espaço aqui.
Os minutos passaram correndo mas dentro de mim foram vagarosos e ensurdecedores.
São seis da tarde e eu decido tentar acender o abajur: a luz quase cegou meus olhos — finalmente!
Mas, pensando bem, enquanto eu voltava da cozinha antes de acender as velas, acho que as luzes da sala já estavam acesas.

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