quinta-feira, junho 28, 2018

Passeio pelos becos desse mundo.



Nas noites que eu consigo dormir, tenho sonhos. E lembro-me de todos eles, sejam eles bons desses que me fazem acordar sorrindo, ou até mesmo dos ruins que me obrigam a despertar no meio da noite receosa.

Passei a questiona-los frequentemente. Questionar a veracidade das sensações e sentimentos que nele são penetrados. A única coisa real é o que sentimos enquanto estamos afogados em nós mesmos num sono profundo e gostoso?
Pra onde vamos enquanto sonhamos? Pra fora? Ou pra parte mais crua e inconsciente de nós?

Prefiro pensar na junção mais do que harmônica desses dois aspectos. Como se ao adormecer eu saísse por aí, conhecendo o mundo e pessoas. Bares e rodas de samba. E no meio desse passeio um tanto quanto alucinante vou me reconhecendo.

E com os sentimentos que são finalmente exteriorizados e retirados de mim, nem sempre da forma mais sutil, mas há quem diga que somos afogados por algumas ondas durante a vida.

Em meio aos meus sonhos estive por becos escuros, tão escuros que cai em buracos, rolei e possas, pisei em muitos ovos e sangrei por esbarrar em vidros, senti a aflição de estar perdido. Perdido decidi sentar e me acalmar, uma hora ou outra o dia teria que clarear.
Choraminguei um bocado, perdi o ar feito criança quando faz birra, e não há nada de errado nisso.

Nessas andanças deixei muita coisa ir, deixei-me livre pra me perdoar, e me aceitar com cada pedaço que estava fora do lugar. Os dias ainda clareiam durante essas caminhadas, tem um sol tão quente igual abraço de mãe.

Encontrei partes minhas no beco, no bar, na praia. Tô organizando a casa toda de novo ao invés de me mudar. E aí eu desperto desses sonhos loucos e indecifráveis, ora sorrindo, ora chateada, mas ultimamente me arrumando.

Tem sensação que não me cabe mais, mesmo eu sendo tão imensa de alma; Tem espaço pra tanta coisa boa, pra erro, acerto, pra mim, incertezas e descrenças; tem espaço pra gente real, que sangra e respira fundo igual eu. Tem tanto espaço que nunca deixarei de me encontrar. De me consertar. De me amar. De ser. Só ser.

quinta-feira, junho 21, 2018

Esbarrei em infinitos.



Como viver depois de ultrapassar tantas vidas?

Têm lágrimas rolando por aqui, elas caem, sem contagem, sem o mínimo de cautela possível. Elas caem e caem sem parar.


Faz dias.
Faz muito tempo que eu ando angustiada e não consigo de jeito nenhum chorar. Sequer uma maldita e salgada lágrima.

Acordo como se as costas doessem tanto que eu mal sinto vontade de levantar. Vejo pela janela o dia maravilhoso e me esforço, espero mais um tempo e acabo me rendendo.

É como se tudo que eu já vivi ainda andasse comigo. A cada segundo, latejando, me lembrando, de tudo, de todos, do toque, do soco, do choro, do jardim que nasceu dentro de mim, até mesmo de quando queimaram tudo. E eu ainda sim acendi e deixei queimar.

Acabo não conseguindo esquecer e eu tento muito. É andar distraído em um momento bom que qualquer pensamento ou lembrança ruim que eu ousar relacionar com alguém cotidiano que minha cabeça explode. Meu estomago embrulha. Tudo revira. E a angustia vem.

Como é pra você viver depois de ultrapassar vidas?
Depois de magoar. De desapontar. De errar.
Como você vive?

Eu entendo claramente que erramos que estamos uma vida toda pra aprender a evoluir, se é que evolução existe. Mas estamos em busca de menos erros, de mais aceitação, de mais empatia.
Como encarar e aceitar os erros quando eles ainda gritam?

Ecoam como os gritos que eu não gritei. E eu aposto que vão continuar ecoando na minha cabeça enquanto eu tento insistentemente tira-los daqui.

Esse talvez seja o maldito castigo de sentir muito. E eu sinto muito, me desculpe.

Já pensou que o seu bom dia pode ter mudado o dia de alguém? E que só de te ver sorrir, alguém sorriu de volta? É isso que eu falo sobre carregar fardos de vidas que ultrapassamos.

Nos envolvemos o tempo todo, sem sequer notarmos isso. E é gostoso e lindo, desde que seja saudável.

Bom, talvez o segredo esteja em dar o seu melhor. Mesmo que o seu melhor naquele momento seja o pior de alguém, foi o que você pode fazer. Podemos chamar isso de erro? O melhor pra o pior de alguém?

Tente dar o seu melhor.

Ser sincero, sem ferir. Afinal, falar bom dia quando você não está tão bem não é algo tão ruim assim? Entende? Não é se abster de dias ruins, é só, saber lidar com eles enquanto se relaciona com outrem.
Talvez seja desligar-se um pouco de cada pedacinho seu que esbarrou em alguém. É ouvir aquela música que te lembrava aquela pessoa que foi embora, porque ela simplesmente precisava ir, é ouvir a música e não sentir como se estivessem esfaqueando seu peito umas quarenta e quatro vezes.

É tornar o processo de caminhar, libertador, mesmo que pra fazer isso, tenha que enfrentar momentos difíceis. Afinal, quando eu passo pela sua rua, lembro de quando brincávamos de amarelinha e eu não conseguia pular o inferno, passávamos tardes rindo, e foi bom. É o que eu preciso guardar pra mim hoje.

Como é maravilhoso lembrar de você olhando pra mim e sorrindo, como se a nossa noite nunca fosse acabar. Lembrar mesmo que superficialmente dos seus dedos entrarem em contanto com as minhas costas e dai partirem acariciando toda a silhueta.

Meu deus! E o carnaval de uns anos passados, a bateria passando o calor subindo, os pés dançantes e mãos soltas ao ar. Dançávamos, eu e elas, como se aquele momento fosse único, e foi. Observava cada gargalhada como se fossem as últimas, e sentia sua energia, onde meu corpo estremeceu; e é como se aquele tempo com as mulheres mais poderosas do meu mundo, não pudesse ser contado.


E sim, é doloroso aceitar que pessoas queiram ir embora. Mas elas vão, e sei que eu fui embora muitas vezes. Eu fui embora sem olhar pra traz. Deixei pessoas falando sozinhas. Fechei a porta na cara de amigos em épocas conturbadas.  

Eu já fui pior e talvez não tenha pensado em ser melhor.

E eu fico me perguntando nos momentos em que minhas costas pesam, em que o barulho não acaba ou enquanto o silencio me enlouquece: como as pessoas vivem depois de terem esbarrado por mim?

Eu continuo seguindo em frente, mesmo com dias mais sombrios ou alguns chatos; há momentos bons, tão bons que me fazem querer continuar vivendo e esbarrando em outras vidas, outros mundos; Talvez seja isso, viver seja essa colisão louca entre o início de tudo, em cada universo. Essa ânsia e coragem em voar e cair, e levantar porque ainda temos forças o suficiente pra saber que erros não se consertam sem muita observação e aprendizado.

E hoje, mesmo com essas lágrimas que caem, e caem queimando, estou feliz e disposta a esbarrar em infinitos mundos, e espero, que um dia, esses mundos estejam dispostos a se esbarrarem comigo por aí.  

segunda-feira, junho 11, 2018

Dance comigo.



Depois daquela tarde ao qual pensara em todas as bobagens e mais algumas besteiras, decidi acordar Fred. O dia estava escurecendo e eu não cabia mais em meu desconforto. Mas, –Ó meu Deus! Não tinha como não sorrir ao olhar pra ele. Abriu os olhos e estava meio atrapalhado com o sono que não o deixava em paz, mas mesmo assim, ele me transmitia essa serenidade.

Decidiu dirigir até o hostel mais próximo, o qual ficaríamos por alguns dias pra conhecer a cidade, ou só porque não estávamos preocupados com o mundo casual mesmo.

Por incrível que pareça estávamos com o quarto só pra nós, claro, e mais alguns beliches vazios. Eu só queria me desligar, feito uma boneca dessas com interruptor, on, off, on, off, pena que eu sou apenas uma mulher com uma série de medos que perturbam em meio aos meus silêncios.

Fred percebeu em algum momento que meus olhos desviavam os dele, mesmo que involuntariamente. Ligou uma caixinha de som que tínhamos pego no meu apartamento e começou a me encarar, mexendo a perna direita, depois a esquerda, e juntou com um gingado, se é que posso chamar assim, porque me fez gargalhar.

- Venha dançar comigo.


Juro que a última coisa que queria fazer era dançar, era fingir que as coisas andavam nos conformes aqui dentro. Mas seu sorriso era tão sincero, tua vontade de me fazer sentir melhor estampava cada dente daquela boca maravilhosa.

Não tinha como deixá-lo só nessa. Então comecei a mexer o quadril, deixá-lo solto como se o ar o levasse da esquerda pra direita, leve e natural. Fechei os olhos e levantei os braços como se eu pudesse tocar as estrelas, como se eu pudesse finalmente descartar os meus problemas e eles flutuassem pra longe com os pássaros e as nuvens.

Ninguém merecia uma onda de pensamentos negativos, não aqui, não assim. Desejávamos o mundo, e eu o desejava por inteiro desde então.

Deixei pouco a pouco a euforia encher meu corpo de vontade de ser maior e melhor. Estávamos cansados da viagem, entre cochilos e outros amassos, mas depois que a música começou a tocar decidi me entregar a ela.

Deixe-me levar. Pelo som e por seus toques, onde cada conflito e esbarro se desenrolava em beijos desastrosos e deliciosos. É como estar plenamente satisfeita com a reciprocidade do momento, o qual quanto mais me doo mais ele se dá, pra mim e por mim.

Fred nunca me entendera por completo, e aliás, nem eu mesma, mas estávamos aprendendo juntos a intensidade de um pro outro, caminhando devagar, lado a lado, ainda que nem metade do que temos pra viver tenha sido descoberto, mas quem se importa?

Apenas feche os olhos e ouça, ouça a música além das notas musicais, além do que a letra deseja transparecer, distante do que o timbre o toca como toque; e quando eu digo para ouvir, sinta, sinta cada parte do seu corpo conversar e mexer contigo; sinta cada milímetro da pele exalar, arrepiar... Os pés batem num ritmo que existe dentro da mente, a sensação passa, passa pelo quadril o fazendo rebolar delicadamente no seu ritmo, expondo sua áurea. Os braços elevam-se, a cabeça só sincroniza, e quando perceber todo o seu corpo e alma estarão em harmonia.


 Eu só não quero que essa noite acabe e que esse sorriso saia de meu rosto. Se eu pudesse fotografar um momento, seria esse, pela intimidade que criamos em um pequeno espaço de tempo.

Sabe, fico me perguntando quem é que inventou essa maldição que é o tempo, que não nos deixa viver sós, sem preocupações e limitações. Que se exploda o tempo, eu só quero deixar por cada canto desse universo a sensação de ser preenchida, a marca de ser mais uma no mundo, mais uma mulher que conseguiu esquecer-se de só existir. E ter comigo até o fim –seja lá se é que existe, além da felicidade, ter a satisfação de ser a mulher que nasci pra ser, apesar dos erros, repleta de luz.

E desde que trombei com Fred a caminhada tem sido mais leve, como se eu acrescentasse algo na mochila que fizesse tudo que é passado sumir. Vivíamos uma loucura, pode parecer clichê, mas eu estava disposta a enlouquecer por uma vida inteira.

terça-feira, abril 03, 2018

Aos poucos. Do pouco que somos.


É preciso entender.
Talvez seja mesmo preciso entender que estamos o tempo todo a crescer.
Criados para errarmos, evoluídos para sermos muito do nada que aprendemos aos poucos a construir. Construir o nada?
Sim

É preciso entender que apesar de estarmos sozinhos, ainda sim, não estamos. Não precisamos estar, me entende?

Entenda que cada dor é única, que cada impasse é particular e cada crise é extremamente o final do que nascemos pra achar que seria o início.

Conversa comigo e tenta entender.


Entender que o amanhecer traz sim uma nova possibilidade.
E não crer na esperança é um suicídio indiretamente grotesco.
É claro que vai doer, e ora, querido... estamos tão perdidos.
Não falo isso da boca pra fora, não falo isso pra amenizar. Falo porque é, e quero que entenda.
Entenda que estamos a morrer desde o choro do nascimento e que absurdo, não? Que absurdo estar no mundo sabendo que amanhã talvez eu possa não estar aqui.

Não se diminua. Não se inferiorize.

Isso rasga. Rasga e acaba com a ânsia que temos de ser melhores todos os dias - mesmo que isso não aconteça sempre, na verdade, isso acontece quase nunca.

Tô aqui, sentada pensando no que conversamos.
Tô sentada tentando te ajudar da única maneira que eu sei me expressar - escrevendo.

Não é suficiente, não somos suficientes, eu nunca fui o suficiente.
Mas só respira fundo, respira fundo quantas vezes você achar necessário. Mantém os olhos cerrados quando estiver inconformado e infeliz, e chora. Sinta tudo o que tiver de sentir, só não vale sentir-se pouco, porque não somos pouco.

Provavelmente você não entenda o que se passa na minha mente, na realidade, não entende muito o que se passa na sua.

Eu sei que você não quer me deixar entrar.

Mas eu espero, sinceramente, que você enxergue que esse potencial todo que você tem, e tem mesmo, não é concretizado apenas pelas possibilidades que tivemos e fracassamos.

Acreditarmos em alguém, não é um erro nosso, e não suprirmos as expectativas também não. É nessa hora que você tem que levantar a cabeça -pesada do travesseiro e seguir. Por qual caminho? Não sei te dizer, mas eu sei que você pode tudo, e vai conseguir.

Você mesmo me disse "Estamos aqui e podemos ser tudo e fazer tudo."

Faça. Aos poucos. No seu tempo. Independente de qual for seu tempo.

Um passo de cada vez.
Não se afobe.
Desanimar é preciso.
Mas reanimar a alma é ainda mais necessário.
Você vai sentir quando for a hora.
Todos temos nossa hora.
E eu sei que a sua... eu espero... que você entenda o quanto é capaz de lidar com tudo que te aflige, assusta, com tudo que você acha fracassar, mas não.

Você não fracassou.

terça-feira, janeiro 23, 2018

Espanto.


A noite de hoje está tão estrelada, e a luz que elas refletem tão mais reluzente em meio a essa escuridão que me encontro no quintal de casa.

Estive pensando.
Pensei por dias.

Percebi o quanto ainda me sinto intrigada a respeito do Universo.

Galáxia por galáxia.
Átomos e poeira cósmica.

Sobre os dias que podem simplesmente de uma hora pra outra não clarear mais.


Estou tão enferrujada nisso, nessa ideia cômoda e repetitiva de que o mundo não tem nada mais a oferecer, e que a Era Niilista realmente chegou. Há quanto tempo me vendaram? Há quanto tempo me ceguei? Nada traz interesse, nada parece me excitar como a primeira vez que senti a água salgada molhar meus pés.

Às vezes eu desconfio que esse encanto ainda passeie por minhas veias, fervendo, esperando por minha permissão.

Essa coisa de se lembrar, tentar enxergar que cada sensação é única, feito essas estrelas que nunca terão o mesmo brilho de hoje. E que eu nunca serei a mesma de agora ao se passarem os segundos.


Observar a vida com a mesma empolgação de uma criança – Com os olhos que saltam e não querem nunca dormir, afinal, tudo é tão inovador e diferente. Sentir prazer em viver, experienciar como se fosse a primeira vez – E diga-se de passagem, é!

A primeira vez que sinto o aroma do teu perfume. Ou no chocar de nosso toque. Até aquela sensação de quando deixo a chuva deslizar lentamente por meus cabelos.

Vivenciar e me surpreender.

Sem pré-julgamentos, aos olhos de quem é a cada segundo, uma nova pessoa.


Eu preciso reaprender que aprender a sentir faz parte de crescer e me admirar com o todo ao qual desconsidero. Permitir-se sentir é reconsiderar que a felicidade ainda é possível.

E quer saber? Que sensação maravilhosa ao contemplar essa noite.