quinta-feira, janeiro 29, 2026

A (real) meta de 2026.

A vida é além. E sempre será.

A vida é além do close-up certo com o cenário bem organizado. A vida é a mesa da ceia atrasada. O som que tocava músicas que não agradavam a todos.

A vida é o fogo de artifício que não urgiu pela chuva e é também a risada da família ao contar uma piada que todo mundo da mesa já sabia o desfecho.

Ela é a chuva de verão durante aquela comemoração importante, é o calor, carinho e aconchego ao receber o outro de coração aberto.

A vida é inédita, apesar de muitas vezes ser óbvia. Mas o óbvio quase sempre nos surpreende.

Que os abraços continuem sendo sinceros, confortáveis e reais.

E que 2026 comece com integridade e esperança.

quarta-feira, agosto 28, 2019

Você tem vida saindo de si?

Quando você se deixa de um lado para o outro, vai sentindo e se deixando decidir da maneira mais pura – e sincera, de onde começa a sua vontade. E vai abdicando aos poucos das restrições criadas, involuntariamente, ao redor do mundo pessoal e cultural na nossa mente.
E vai retirando rótulos que intitulam sensações que nem sequer conseguimos ainda reconhecer, mas enquanto continuarmos correndo incessantemente a procura de respostas cabais tudo que fazemos é deixar-nos pra trás, ao avesso.
Esse avesso é a vida, e a vida que nos transborda é arte. A arte de sentir prazer ao desvelar-nos dentro da luz e escuridão que somos.
E a gente vai deixando um pouco dessa vitalidade por aí.
No céu,
no sopro,
no outro,
no corpo,
como pensamento, toque ou no ecoar suave do timbre da voz.
Você começa a sentir o sangue percorrendo por cada canto do corpo, fortalecendo e finalmente tirando-nos a lucidez racional – se é que é tão racional assim. Percebe que se perder, nem é tão desesperador, talvez até um pouco revigorante, nos faz descartar as certezas pra oferecer o palco para nossos sentimentos.
Enquanto esse processo acontece, a gente vive e deixa toda essa vida transbordar... No recitar de uma poesia, na ponta do pincel ou até num olhar reflexivo pra dentro de nós mesmos.

domingo, agosto 05, 2018

Incêndio.


Você entra pela porta da frente.
É o único jeito de me encontrar. Parece surpreso, corpo meio bambo, sua boca ansiando-me. Não consigo encara-lo, só sei sentir o quanto meu corpo se choca dentro dos seus braços, em um abraço fervendo, pulsando.

Só quero me afundar em você.

Não preciso nem calar a tua boca, afinal, prefere mordiscar cada milímetro da epiderme quente em te oferecer a única coisa que eu posso oferecer agora. A única coisa que eu quero te oferecer agora.

Cê nem entrou e já te quero no meu quarto. Agora. Na sacada? Na escada? Bom, na mesa daquele bar.

Enterro meus dedos em teu cabelo, são macios como quando viajo por seu corpo todo. Empurro você pra qualquer espaço livre do quarto.

Te olhar e desejar. Suas mãos perpassando o pescoço, devagar, sobre os seios, cintura e segurando firme a minha coxa colada em você.
E na cama a gente se junta. – Caralho! Só consigo pensar em como odeio te ver vestido. Já em cima arranco suas roupas, como se não tivéssemos tempo.

Bem, não temos muito tempo e eu detesto isso.

Eu me afogo em você, e me permito explorar cada pedaço teu. Começo pelo seu pescoço, respirando devagar, desço mais devagar ainda enquanto você acaricia todos os lugares que suas mãos conseguem alcançar.

Caminho lentamente entre o ombro, peito, barriga. Eu desceria mais.

Preciso de uma pausa pra voltar a beijar sua boca. Seus lábios saborosos feito açúcar, mas tem um gosto amargo no final, e você sabe o porquê. 

Tô perdendo o controle de mim e você gosta disso. Entrelaça meu cabelo em tua mão e puxa devagar, me carrega, me encaixa. Me faz perder mais do que o controle, você me faz perder a cabeça.

Sempre quero te sentir. Sentir o gosto de cada gota de suor enquanto minha língua percorre seu corpo, quente, naquele momento, meu.

Suas mãos e o estalar em todo lugar.
Devagar.

Tem feito frio lá fora, as janelas ficaram embaçadas, e é por isso que amo como você faz faísca e logo depois faz tudo pegar fogo. – Meu deus! Porque quando você chega minhas madrugadas viram dias ardentes, é... Você é o inferno.
O desejo borbulha feito o pecado enquanto você me devora e eu deixo essa merda toda queimar.
Há chamas por todos os cantos.

Eu deixo pegar fogo e ele se alastra pelo nosso corpo que só se separa por segundos.
Um ou dois segundos.

Desenho bruscamente a nossa noite em suas costas, fincando as unhas em busca de extravasar o prazer. Aperto-te contra meu corpo, mais rápido, eu não quero que essa madrugada clareie.

Em meio ao desespero você me olha e enquanto te encaro, o pouco que consigo, afinal, têm outras coisas me tirando a atenção. Enquanto você me encara eu lembro como é se sentir completamente em êxtase.

Você me explora nua.
E eu sou o que sou.
Crua.

Você acha que me conhece pouco, mas me conhece tanto que nem eu sei se devo me preocupar mais.
Me apoiando em você, enquanto você se aprofunda em mim, sussurrando no meu ouvido, mais rápido. Suas mãos no meu pescoço, sua boca que eu não consigo me distanciar.

Te olho e desejo te ver na minha cama, mais do que só hoje. Eu desejo mais ainda te ter entre as minhas pernas, além de dentro da minha cabeça.

Só quero que você me deixe em paz.

Tu faz tudo isso tão bem, e eu te odeio por isso.
Quando a gente acaba, ou dá uma pausa, porque pra gente, a nossa transa nunca tem fim...quando a gente se satisfaz você me abraça. Cê me envolve tão bem em meio a sua inconstância de ser o que quer quando quer.

De chegar quando quer. E de ir quando se envolve demais.

Eu te odeio por isso, e mesmo assim me permito queimar em meio a esse abraço do diabo e nosso quarto em chamas, enquanto o pecado me consome por aceitar te ter só mais essa noite.

quinta-feira, junho 28, 2018

Passeio pelos becos desse mundo.



Nas noites que eu consigo dormir, tenho sonhos. E lembro-me de todos eles, sejam eles bons desses que me fazem acordar sorrindo, ou até mesmo dos ruins que me obrigam a despertar no meio da noite receosa.

Passei a questiona-los frequentemente. Questionar a veracidade das sensações e sentimentos que nele são penetrados. A única coisa real é o que sentimos enquanto estamos afogados em nós mesmos num sono profundo e gostoso?
Pra onde vamos enquanto sonhamos? Pra fora? Ou pra parte mais crua e inconsciente de nós?

Prefiro pensar na junção mais do que harmônica desses dois aspectos. Como se ao adormecer eu saísse por aí, conhecendo o mundo e pessoas. Bares e rodas de samba. E no meio desse passeio um tanto quanto alucinante vou me reconhecendo.

E com os sentimentos que são finalmente exteriorizados e retirados de mim, nem sempre da forma mais sutil, mas há quem diga que somos afogados por algumas ondas durante a vida.

Em meio aos meus sonhos estive por becos escuros, tão escuros que cai em buracos, rolei e possas, pisei em muitos ovos e sangrei por esbarrar em vidros, senti a aflição de estar perdido. Perdido decidi sentar e me acalmar, uma hora ou outra o dia teria que clarear.
Choraminguei um bocado, perdi o ar feito criança quando faz birra, e não há nada de errado nisso.

Nessas andanças deixei muita coisa ir, deixei-me livre pra me perdoar, e me aceitar com cada pedaço que estava fora do lugar. Os dias ainda clareiam durante essas caminhadas, tem um sol tão quente igual abraço de mãe.

Encontrei partes minhas no beco, no bar, na praia. Tô organizando a casa toda de novo ao invés de me mudar. E aí eu desperto desses sonhos loucos e indecifráveis, ora sorrindo, ora chateada, mas ultimamente me arrumando.

Tem sensação que não me cabe mais, mesmo eu sendo tão imensa de alma; Tem espaço pra tanta coisa boa, pra erro, acerto, pra mim, incertezas e descrenças; tem espaço pra gente real, que sangra e respira fundo igual eu. Tem tanto espaço que nunca deixarei de me encontrar. De me consertar. De me amar. De ser. Só ser.

quinta-feira, junho 21, 2018

Esbarrei em infinitos.



Como viver depois de ultrapassar tantas vidas?

Têm lágrimas rolando por aqui, elas caem, sem contagem, sem o mínimo de cautela possível. Elas caem e caem sem parar.


Faz dias.
Faz muito tempo que eu ando angustiada e não consigo de jeito nenhum chorar. Sequer uma maldita e salgada lágrima.

Acordo como se as costas doessem tanto que eu mal sinto vontade de levantar. Vejo pela janela o dia maravilhoso e me esforço, espero mais um tempo e acabo me rendendo.

É como se tudo que eu já vivi ainda andasse comigo. A cada segundo, latejando, me lembrando, de tudo, de todos, do toque, do soco, do choro, do jardim que nasceu dentro de mim, até mesmo de quando queimaram tudo. E eu ainda sim acendi e deixei queimar.

Acabo não conseguindo esquecer e eu tento muito. É andar distraído em um momento bom que qualquer pensamento ou lembrança ruim que eu ousar relacionar com alguém cotidiano que minha cabeça explode. Meu estomago embrulha. Tudo revira. E a angustia vem.

Como é pra você viver depois de ultrapassar vidas?
Depois de magoar. De desapontar. De errar.
Como você vive?

Eu entendo claramente que erramos que estamos uma vida toda pra aprender a evoluir, se é que evolução existe. Mas estamos em busca de menos erros, de mais aceitação, de mais empatia.
Como encarar e aceitar os erros quando eles ainda gritam?

Ecoam como os gritos que eu não gritei. E eu aposto que vão continuar ecoando na minha cabeça enquanto eu tento insistentemente tira-los daqui.

Esse talvez seja o maldito castigo de sentir muito. E eu sinto muito, me desculpe.

Já pensou que o seu bom dia pode ter mudado o dia de alguém? E que só de te ver sorrir, alguém sorriu de volta? É isso que eu falo sobre carregar fardos de vidas que ultrapassamos.

Nos envolvemos o tempo todo, sem sequer notarmos isso. E é gostoso e lindo, desde que seja saudável.

Bom, talvez o segredo esteja em dar o seu melhor. Mesmo que o seu melhor naquele momento seja o pior de alguém, foi o que você pode fazer. Podemos chamar isso de erro? O melhor pra o pior de alguém?

Tente dar o seu melhor.

Ser sincero, sem ferir. Afinal, falar bom dia quando você não está tão bem não é algo tão ruim assim? Entende? Não é se abster de dias ruins, é só, saber lidar com eles enquanto se relaciona com outrem.
Talvez seja desligar-se um pouco de cada pedacinho seu que esbarrou em alguém. É ouvir aquela música que te lembrava aquela pessoa que foi embora, porque ela simplesmente precisava ir, é ouvir a música e não sentir como se estivessem esfaqueando seu peito umas quarenta e quatro vezes.

É tornar o processo de caminhar, libertador, mesmo que pra fazer isso, tenha que enfrentar momentos difíceis. Afinal, quando eu passo pela sua rua, lembro de quando brincávamos de amarelinha e eu não conseguia pular o inferno, passávamos tardes rindo, e foi bom. É o que eu preciso guardar pra mim hoje.

Como é maravilhoso lembrar de você olhando pra mim e sorrindo, como se a nossa noite nunca fosse acabar. Lembrar mesmo que superficialmente dos seus dedos entrarem em contanto com as minhas costas e dai partirem acariciando toda a silhueta.

Meu deus! E o carnaval de uns anos passados, a bateria passando o calor subindo, os pés dançantes e mãos soltas ao ar. Dançávamos, eu e elas, como se aquele momento fosse único, e foi. Observava cada gargalhada como se fossem as últimas, e sentia sua energia, onde meu corpo estremeceu; e é como se aquele tempo com as mulheres mais poderosas do meu mundo, não pudesse ser contado.


E sim, é doloroso aceitar que pessoas queiram ir embora. Mas elas vão, e sei que eu fui embora muitas vezes. Eu fui embora sem olhar pra traz. Deixei pessoas falando sozinhas. Fechei a porta na cara de amigos em épocas conturbadas.  

Eu já fui pior e talvez não tenha pensado em ser melhor.

E eu fico me perguntando nos momentos em que minhas costas pesam, em que o barulho não acaba ou enquanto o silencio me enlouquece: como as pessoas vivem depois de terem esbarrado por mim?

Eu continuo seguindo em frente, mesmo com dias mais sombrios ou alguns chatos; há momentos bons, tão bons que me fazem querer continuar vivendo e esbarrando em outras vidas, outros mundos; Talvez seja isso, viver seja essa colisão louca entre o início de tudo, em cada universo. Essa ânsia e coragem em voar e cair, e levantar porque ainda temos forças o suficiente pra saber que erros não se consertam sem muita observação e aprendizado.

E hoje, mesmo com essas lágrimas que caem, e caem queimando, estou feliz e disposta a esbarrar em infinitos mundos, e espero, que um dia, esses mundos estejam dispostos a se esbarrarem comigo por aí.