domingo, fevereiro 08, 2026

Alerta de tempestade

O alerta toca. Um apito ensurdecedor tomando conta do espaço inteiro.

Esgoela!

Recobro a consciência pra fora do transe que estava — internamente, observo ao meu redor. Arrasto o pescoço para o lado direito do quarto, olho as paredes beges e sua atmosfera ríspida, a mesa de cabeceira e o livro da vez apoiado sob a madeira cor mogli. A luz do abajur ilumina tudo que está vazio, não que o quarto esteja… mas está abarrotado de nós. Uma linha passa por cima da porta, segue o percurso das paredes, passa por cima da cama, se enrola no travesseiro esquerdo, a frente dá voltas em meus braços que descansam suavemente ao lado de meu corpo. Sentada, eu continuo olhando até onde essa linha vai. Parece não ter fim, ou será que tem?

A luz do abajur pisca uma vez e então ouço um estrondo vindo lá de fora, um trovão soa como se estivesse sentado do lado esquerdo da cama. Assustador!

Ao piscar os olhos noto que a escuridão havia se instalado. A energia acabou? — Verdade, o alerta!

A janela que já estava entreaberta me dá visão para as árvores que se mexem aflitas do lado de fora, ouço o uivar nada sutil do vento que a balança, ouso dizer que balance até as paredes.

Eu me levanto em meio aos embaraços e nós espalhados pelo quarto, ando lentamente — afinal, é domingo, até a cozinha. Reviro os armários em busca de uma vela para iluminar o quarto e me deixar ler um livro, já que não consigo assistir nada na TV e nem scrollar o celular que está sem bateria. Na gaveta tem: pano de prato com bordados em vermelho, descanso de copo (um de cada cor), bucha de limpeza nova, e lá no fundo, encontro as velas. Duas. Brancas… dessas que todo mundo tem em casa para situações de emergência. Isso ainda é comum?

O isqueiro estava ao lado do fogão, então foi fácil encontra-lo. Antes de voltar ao quarto peguei também um pires para fixar a vela. No caminho entre a cozinha e a sala ouço a chuva cair, brusca e latente. O alarme era sobre uma tempestade que se aproximava.

Bom, ela chegou e me causa calafrios.

Continuo meu caminho até o quarto, e não estranho… mas a linha está por toda parte. Enrolada na TV, no pote de ração da cachorra, amarrada em meu chinelo… De novo sentada na cama.

Atrito a roda do isqueiro e então a faísca aparece e eu consigo acender o pavio da vela, inclino-a sobre o pires e deixo pingar. Uma, duas, três gotas de cera quente. Reposiciono rapidamente a vela em cima dessas gotas e a fixo ali.

O pires é logo colocado em cima da mesa de cabeceira ao lado da cama e lá a vela permanece, iluminando o ambiente — e meus pensamentos. Meu objetivo inicial era ler o livro, mas vou deixar pra depois.

Eu queria terminar aquele projeto no computador, mas a energia ainda não voltou.

Tentei dormir, mas o sono não vem porque ainda penso que poderia estar fazendo outra coisa.

E eu permaneço aqui, me afogando nos nós que estão se formando em volta do meu pescoço. Pensamento após pensamento. Mais uma volta e me questiono — será que eu consigo sair disso?

Imóvel e sem ar, movo os olhos para o lado pra me certificar de que não fecharam as janelas. Não há ar e nem espaço vazio, mas o engraçado é que esse quarto só tem uma cama e duas mesas de cabeceira, eu sei que há espaço aqui.

Os minutos passaram correndo mas dentro de mim foram vagarosos e ensurdecedores.

São seis da tarde e eu decido tentar acender o abajur: a luz quase cegou meus olhos — finalmente!

Mas, pensando bem, enquanto eu voltava da cozinha antes de acender as velas, acho que as luzes da sala já estavam acesas.

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Um prédio em (in)finita construção

E se eu pudesse te trazer pra perto? Tão perto que colasse sua pele na minha o suficiente pra que a nossa respiração entrasse em sincronia  — meu Deus, e se eu pudesse? 

E se eu pudesse, numa noite chuvosa qualquer de verão, contar-te o que aflige meus sentidos e que revira a minha cabeça? 

E se eu pudesse, meu amor?

E se eu pudesse te mostrar cada milímetro da minha alma e ego… o ralado da infância e as histórias que ficaram escondidas dentro de quartos que eu criei — bem aqui, no peito, e nunca deixei ninguém entrar.

E se eu pudesse, você aceitaria ficar?

Mas meu amor, o engraçado - e gracioso de tudo isso, é que eu posso. E eu faço.

Com a sua escolha de permanecer eu continuo sendo. Eu mesma, ou algo próximo disso. Eu continuo buscando ser e te expressando como é amar alguém que constantemente busca completar-se de si, mesmo tendo você.

quinta-feira, janeiro 29, 2026

A (real) meta de 2026.

A vida é além. E sempre será.

A vida é além do close-up certo com o cenário bem organizado. A vida é a mesa da ceia atrasada. O som que tocava músicas que não agradavam a todos.

A vida é o fogo de artifício que não urgiu pela chuva e é também a risada da família ao contar uma piada que todo mundo da mesa já sabia o desfecho.

Ela é a chuva de verão durante aquela comemoração importante, é o calor, carinho e aconchego ao receber o outro de coração aberto.

A vida é inédita, apesar de muitas vezes ser óbvia. Mas o óbvio quase sempre nos surpreende.

Que os abraços continuem sendo sinceros, confortáveis e reais.

E que 2026 comece com integridade e esperança.

quarta-feira, agosto 28, 2019

Você tem vida saindo de si?

Quando você se deixa de um lado para o outro, vai sentindo e se deixando decidir da maneira mais pura – e sincera, de onde começa a sua vontade. E vai abdicando aos poucos das restrições criadas, involuntariamente, ao redor do mundo pessoal e cultural na nossa mente.
E vai retirando rótulos que intitulam sensações que nem sequer conseguimos ainda reconhecer, mas enquanto continuarmos correndo incessantemente a procura de respostas cabais tudo que fazemos é deixar-nos pra trás, ao avesso.
Esse avesso é a vida, e a vida que nos transborda é arte. A arte de sentir prazer ao desvelar-nos dentro da luz e escuridão que somos.
E a gente vai deixando um pouco dessa vitalidade por aí.
No céu,
no sopro,
no outro,
no corpo,
como pensamento, toque ou no ecoar suave do timbre da voz.
Você começa a sentir o sangue percorrendo por cada canto do corpo, fortalecendo e finalmente tirando-nos a lucidez racional – se é que é tão racional assim. Percebe que se perder, nem é tão desesperador, talvez até um pouco revigorante, nos faz descartar as certezas pra oferecer o palco para nossos sentimentos.
Enquanto esse processo acontece, a gente vive e deixa toda essa vida transbordar... No recitar de uma poesia, na ponta do pincel ou até num olhar reflexivo pra dentro de nós mesmos.

domingo, agosto 05, 2018

Incêndio.


Você entra pela porta da frente.
É o único jeito de me encontrar. Parece surpreso, corpo meio bambo, sua boca ansiando-me. Não consigo encara-lo, só sei sentir o quanto meu corpo se choca dentro dos seus braços, em um abraço fervendo, pulsando.

Só quero me afundar em você.

Não preciso nem calar a tua boca, afinal, prefere mordiscar cada milímetro da epiderme quente em te oferecer a única coisa que eu posso oferecer agora. A única coisa que eu quero te oferecer agora.

Cê nem entrou e já te quero no meu quarto. Agora. Na sacada? Na escada? Bom, na mesa daquele bar.

Enterro meus dedos em teu cabelo, são macios como quando viajo por seu corpo todo. Empurro você pra qualquer espaço livre do quarto.

Te olhar e desejar. Suas mãos perpassando o pescoço, devagar, sobre os seios, cintura e segurando firme a minha coxa colada em você.
E na cama a gente se junta. – Caralho! Só consigo pensar em como odeio te ver vestido. Já em cima arranco suas roupas, como se não tivéssemos tempo.

Bem, não temos muito tempo e eu detesto isso.

Eu me afogo em você, e me permito explorar cada pedaço teu. Começo pelo seu pescoço, respirando devagar, desço mais devagar ainda enquanto você acaricia todos os lugares que suas mãos conseguem alcançar.

Caminho lentamente entre o ombro, peito, barriga. Eu desceria mais.

Preciso de uma pausa pra voltar a beijar sua boca. Seus lábios saborosos feito açúcar, mas tem um gosto amargo no final, e você sabe o porquê. 

Tô perdendo o controle de mim e você gosta disso. Entrelaça meu cabelo em tua mão e puxa devagar, me carrega, me encaixa. Me faz perder mais do que o controle, você me faz perder a cabeça.

Sempre quero te sentir. Sentir o gosto de cada gota de suor enquanto minha língua percorre seu corpo, quente, naquele momento, meu.

Suas mãos e o estalar em todo lugar.
Devagar.

Tem feito frio lá fora, as janelas ficaram embaçadas, e é por isso que amo como você faz faísca e logo depois faz tudo pegar fogo. – Meu deus! Porque quando você chega minhas madrugadas viram dias ardentes, é... Você é o inferno.
O desejo borbulha feito o pecado enquanto você me devora e eu deixo essa merda toda queimar.
Há chamas por todos os cantos.

Eu deixo pegar fogo e ele se alastra pelo nosso corpo que só se separa por segundos.
Um ou dois segundos.

Desenho bruscamente a nossa noite em suas costas, fincando as unhas em busca de extravasar o prazer. Aperto-te contra meu corpo, mais rápido, eu não quero que essa madrugada clareie.

Em meio ao desespero você me olha e enquanto te encaro, o pouco que consigo, afinal, têm outras coisas me tirando a atenção. Enquanto você me encara eu lembro como é se sentir completamente em êxtase.

Você me explora nua.
E eu sou o que sou.
Crua.

Você acha que me conhece pouco, mas me conhece tanto que nem eu sei se devo me preocupar mais.
Me apoiando em você, enquanto você se aprofunda em mim, sussurrando no meu ouvido, mais rápido. Suas mãos no meu pescoço, sua boca que eu não consigo me distanciar.

Te olho e desejo te ver na minha cama, mais do que só hoje. Eu desejo mais ainda te ter entre as minhas pernas, além de dentro da minha cabeça.

Só quero que você me deixe em paz.

Tu faz tudo isso tão bem, e eu te odeio por isso.
Quando a gente acaba, ou dá uma pausa, porque pra gente, a nossa transa nunca tem fim...quando a gente se satisfaz você me abraça. Cê me envolve tão bem em meio a sua inconstância de ser o que quer quando quer.

De chegar quando quer. E de ir quando se envolve demais.

Eu te odeio por isso, e mesmo assim me permito queimar em meio a esse abraço do diabo e nosso quarto em chamas, enquanto o pecado me consome por aceitar te ter só mais essa noite.