terça-feira, agosto 09, 2016

Alto mar.

Passei horas almejando e tentando impiedosamente ser o que nunca fui. Prolonguei-me por anos atrás de desejos que não me fazer – nem sequer fizeram, saltar o coração do peito. Os dias nublados viraram tempestades, e a minha vontade de levantar da cama foi abolida.

Durante uma tarde de Verão onde só se ouvia o barulho do ventilador, velho e enferrujado – por sinal, permaneci sentada no sofá procrastinando a respeito das milhares coisas inacabadas que precisavam urgentemente serem feitas, das tarefas que eu não ousará iniciar e bem, das que eu já havia deixado de lado. Em meio a estes devaneios resolvi questionar sobre minhas vontades, minhas partes... E foi em uma dessas perguntas jogadas pelo espaço que me afoguei num banho de água fria, afinal:

Quanto tempo ainda me resta para descobrir o que eu sou?

Já parou pra pensar nisso? E é sério quando eu pergunto sobre pensar, é navegar em cada possibilidade, é atravessar seu corpo e mente sensível de uma maneira na qual só você – Porque só você tem a chave do seu mundo, medos e desejos profundos que não se encontrarão na superfície nem com magia ou reza.

O que eu sou hoje?


E ainda sentada no sofá, parecia uma garota em alto mar, sem as bóias de braço, os pés de pato, sem os pais ao lado. Questionando-me desta maneira me fez sentir o cheiro de toda infância retornar:

O que você quer ser quando crescer?

E no final da festa, da noite, da despedida, eu nunca soubera – E ainda não sei. Enquanto corria na terra de nada me valia essa pergunta, bastava o sol brilhar e qualquer problema seria transformado em girassol para seguir o astro mais quente e atraente que já me fora apresentado pela natureza.

De que me vale essa pergunta hoje?

Andei de bicicleta, cai, aprendi, conheci novos colegas, chorei, chorei muito quando meu amigo quebrou o brinquedo que levei na aula, aprendi a esconder as lágrimas de quem me queria mal, conheci um garoto – acho que, me apaixonei por ele; ele mudou de cidade, estudei pro vestibular, fracassei, desisti de tudo e então me reergui, sorri, sorri pela sorte de encontrar minha mãe em casa mais um dia, gargalhei por dores alheias e aprendi que o fazer é doloroso – pra ambos. O mundo vem crescendo dentro de mim e eu sequer sei se estou seguindo meus instintos e prazeres. Eis então, será que um dia me tornarei – a par de minhas vontades, quem devo ser?


Acalmei o bravo mar em que me encontrava diante todos os questionamentos aos quais mais me afoguei do que inspirei. – Não, eu não acalmei o alvoroço encontrando um desfecho, resposta premeditada, nem procurei em livros de auto-ajuda. A calmaria foi se ajeitando com as gotas de chuva, uma por uma, pingando, lentamente, enquanto todo o cenário se distorcia. As bruscas ondas vieram a ser leves correntes d’água e minha respiração voltou ao ritmo natural.


Com os olhos finalmente fechados, o barulho do ventilador já não me incomodava – não tanto quanto minhas duvidas. Porém posso desligá-lo, já minhas duvidas só serão sanadas se a minha vida for vivida dentro de suas incertezas e minha incompletude.

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