Passei horas almejando e tentando impiedosamente ser
o que nunca fui. Prolonguei-me por anos atrás de desejos que não me fazer – nem
sequer fizeram, saltar o coração do peito. Os dias nublados viraram
tempestades, e a minha vontade de levantar da cama foi abolida.
Durante uma tarde de Verão onde só se ouvia o
barulho do ventilador, velho e enferrujado – por sinal, permaneci sentada no
sofá procrastinando a respeito das milhares coisas inacabadas que precisavam
urgentemente serem feitas, das tarefas que eu não ousará iniciar e bem, das que
eu já havia deixado de lado. Em meio a estes devaneios resolvi questionar sobre
minhas vontades, minhas partes... E foi em uma dessas perguntas jogadas pelo
espaço que me afoguei num banho de água fria, afinal:
Quanto tempo ainda me resta para descobrir o que eu
sou?
Já parou pra pensar nisso? E é sério quando eu
pergunto sobre pensar, é navegar em cada possibilidade, é atravessar seu corpo
e mente sensível de uma maneira na qual só você – Porque só você tem a chave do
seu mundo, medos e desejos profundos que não se encontrarão na superfície nem
com magia ou reza.
O que eu sou hoje?
E ainda sentada no sofá, parecia uma garota em alto
mar, sem as bóias de braço, os pés de pato, sem os pais ao lado.
Questionando-me desta maneira me fez sentir o cheiro de toda infância retornar:
O que você quer ser quando crescer?
E no final da festa, da noite, da despedida, eu
nunca soubera – E ainda não sei. Enquanto corria na terra de nada me valia essa
pergunta, bastava o sol brilhar e qualquer problema seria transformado em
girassol para seguir o astro mais quente e atraente que já me fora apresentado
pela natureza.
De que me vale essa pergunta hoje?
Andei de bicicleta, cai, aprendi, conheci novos
colegas, chorei, chorei muito quando meu amigo quebrou o brinquedo que levei na
aula, aprendi a esconder as lágrimas de quem me queria mal, conheci um garoto –
acho que, me apaixonei por ele; ele mudou de cidade, estudei pro vestibular,
fracassei, desisti de tudo e então me reergui, sorri, sorri pela sorte de
encontrar minha mãe em casa mais um dia, gargalhei por dores alheias e aprendi
que o fazer é doloroso – pra ambos. O mundo vem crescendo dentro de mim e eu
sequer sei se estou seguindo meus instintos e prazeres. Eis então, será que um
dia me tornarei – a par de minhas vontades, quem devo ser?
Acalmei o bravo mar em que me encontrava diante
todos os questionamentos aos quais mais me afoguei do que inspirei. – Não, eu
não acalmei o alvoroço encontrando um desfecho, resposta premeditada, nem
procurei em livros de auto-ajuda. A calmaria foi se ajeitando com as gotas de
chuva, uma por uma, pingando, lentamente, enquanto todo o cenário se distorcia.
As bruscas ondas vieram a ser leves correntes d’água e minha respiração voltou
ao ritmo natural.
Com os olhos finalmente fechados, o barulho do ventilador
já não me incomodava – não tanto quanto minhas duvidas. Porém posso desligá-lo,
já minhas duvidas só serão sanadas se a minha vida for vivida dentro de suas incertezas
e minha incompletude.


Nenhum comentário:
Postar um comentário