quarta-feira, janeiro 14, 2015

Frango xadrez ao molho da lua.

Ela estava gargalhando e viajando em seu particular prazer. Jordana era uma mulher indecifrável, eu a surpreendi, mas quem se afogou na mais pura sensação de liberdade fui eu. Sortudo, ô se sou! O cara mais sortudo desse mundo em tê-la por perto, em tê-la no peito.

Precisava do seu espaço, senti isso desde o momento que a observei no bar. Pensativa demais, às vezes preciso intervir ou a mente dela acaba virando um dragão que tenta comer tudo que enxerga pela frente. Uma caixinha de surpresas, daquelas que ao se abrir afagam a alma e atraem os olhos.

Seguindo viagem. Mas todo lugar era nosso lar.

Eu continuava dirigindo, ouvindo o cd que ela gravara para mim há alguns meses. Meu deus, que lunática! Músicas do MPB a instrumentais, variação de humores e sensações em uma playlist só. Às vezes eu olhava do canto d’olhos para ela, estava imersa, pensando em algo, alguém, lembrando ou só sentindo. Sentir era sua paixão. Sentir amor, perdão, dor, medo, sentir, sentir a tornava viva.

Há dois anos Jordana tornara-se a estrela que brilha o tempo todo em meu céu. A noite vira dia, e o paraíso vira um inferno quando ela penetra seus olhos em mim. Era de se esperar? Acho que não. Eu não entraria no apartamento de outra mulher, eu não faria nada que fiz por ela. Existe algo que me levou até seus braços, ou até àquele bar.

De todos os lugares que eu visitara seu corpo e mente eram os mais libertadores. Chamavam-me de “nômade”, sempre mudara: de emprego, de cidade, amigos, fuso-horário e comidas prediletas. E logo o perfume dela não me enjoara, o sorriso, a ternura e confusão ou sequer da pinta no dedo médio. 

Minha liberdade sempre fora movida pela minha instabilidade, ansiedade de estar, mudar, deixar de ser e logo retornar (...) as madeixas castanhas e seu toque imploraram minha presença, ou na realidade, eu implorara para que ela não se enjoasse.

Em dois mil e dez, depois de topar-me com Jordana meus dias pareciam nublados –mas não aquele nublado que agrada, aquele que deprime-

Não saber sobre seus dias e sua saúde espiritual me deixava completamente perdido. Estava perdido nas horas, nos dias, e nos lugares que eu adorara explorar, perdido num mundo que eu me adaptara a viver, como era possível? Decidi então arrumar as malas. Entraria em seu apartamento e a tomaria um abraço, talvez um beijo e alguns petiscos da cozinha. Foi mais ou menos isso que eu fiz, só que sem a parte do afeto, a fome foi maior naquele momento.

–Onde deixo as malas?  - Queria que ela falasse “No quarto do lado da minha cama”, mas ela não o fez, era óbvio.

–Na sala ou na lavanderia, onde preferir!

Sempre me dava duas ou mais opções. Inteiramente indecisa. “Onde coloco o quadro? Qual roupa visto? Curto ou comprido? Azul ou verde? Eu digo que ele foi estúpido ou fico quieta?”. Jordana, querida... Um coala em extinção, preocupada com os outros e seus sentimentos, não importava se estivera triste, deprimida ou angustiada, o mundo era seu lar e ela acolhia com suas palavras qualquer pessoa, a criança que chorava ou a planta descuidada do vizinho.


Nessa noite dormi no sofá com a companhia de Bob que dormia no tapete da sala. Demorei um pouco para pegar no sono, afinal, eu ainda não acreditara nas aventuras que essa cidade e essa mulher me fizeram encarar. Ela estava deitada na cama, provavelmente com alguma camiseta dois tamanhos acima do seu, coberta e com o ventilador ligado e a janela aberta. Que alvoroço. Pensei em deitar-me na cama, devagar, ela nem perceberia, afinal, dormia como uma pedra que a maré batia, batia e mal fora desgastada por anos. Eu só pensei. E dormi.

Sonhei com seu corpo. E meu corpo. Acho que estavam juntos. E então você me b... –Fred, acorde! Acorde! Preciso que tranque a porta do apartamento assim que eu sair para a faculdade.

A luz vinha da sacada assim como uma brisa gostosa que dançava pela sala, cozinha e seguia. Havia observado a escrivaninha no dia anterior... Ela colecionava livros e alguns bonecos de porcelana. Tinha também uma pilha de blusas de frio no outro sofá, e eu não entendi muito bem... Aquela cidade era um vulcão em erupção, impossível usar tantos casacos, ou precisar tanto deles. Finalmente fitei Jordana, olhos inchados com rímel mal passado, nariz e bochechas corados devido ao clima matinal e uma extrema, rotineira preguiça.

–Finalmente acordou! Já estava pedindo aos deuses, santos e até mesmo ao Bob para que alguma coisa acordasse você!

–É questão de jeito. Quando quiser me acordar rápido devido a alguma emergência me faça cócegas ou me dê um beijo, das duas uma.

Eu tinha uma teoria: Falava tudo o que me desse na telha, desde que não ferisse os sentimentos ou os direitos do receptor. Nascemos com uma bomba relógio ativada em nossos pescoços, sem hora exata para explodir, sem chance de falhar. A morte sempre fora consequência, isso nunca havia sido um problema, o problema era deixar tudo para depois. Sensações, planos, amores. Não fazia o meu tipo. Arriscar e ser honesto, isso sempre fora. Eu amava aquele sorriso, desejava aquele beijo.

Ela sorriu e fechou a porta.

–Eu volto às oito da noite, tente não destruir a casa e tranque a porta. –Gritava já do lado de fora.

Corri para a entrada, abri a porta e inclinei-me metade para o lado de fora.

–Volte às cinco, marquei algo para fazermos.

–Não posso, preciso mesmo de grana esse mês.

–Para quê?

–Só preciso.

–Volte às 5h que lhe darei algo mais valioso que isso.

–Pensarei no seu caso. –Virou-se e sumiu descendo o elevador.

Fiquei a tarde toda com Bob. Pesquisei sobre alguns lugares maravilhosos localizados na Bahia; dormi, ouvi música; Percebera naquela tarde o quanto era entediante sem ela. Sem os olhos dela supervisionando as manchas no tapete e o cansaço em suas pálpebras.

Quase cinco horas. Fui até a cozinha e preparei minha especialidade: Frango xadrez, arroz temperado e morangos picadinhos na salada para dar um toque meio Fred.

Cinco e dez.

Cinco e vinte e cinco. Já estava quase comendo tudo sozinho.

Alguém batia na porta. Corri para abri-la. Deparei-me com uma guriazinha exausta e desanimada, entrara no apartamento quase se arrastando de sono? Talvez.

–Boa tarde! Você chegou mais cedo!

–Mas tão cansada quanto se chegasse às 20h. Preciso de um banho, já volto.
Fui atrás dela antes que ela virasse para o banheiro, queria falar que havia feito o jantar e que não era para deixar com que a rotina dela estragasse seu humor. No meio do caminho ela começou a desabotoar a camiseta ainda direcionando-se ao banheiro. Pensei em continuar observando-a enquanto a mesma não se dava conta de que eu estava atrás dela, mas não me pareceu certo. Ela confiava em mim. Ou pelo menos parecia confiar.

Esperara ela por dez minutinhos, ao som ambiente de Oasis - que havia encontrado em meio às bagunças dela-. Nem precisava olhar para saber que estava chegando à cozinha, seu cheiro preencheu o cômodo, um cheiro suave num degradê adocicado de morango. Vestia uma batinha branca, quase transparente, que se moldava ao seu corpo de tal forma inexplicável. Pelo quadril descia um short azul marinho ainda mais confortável que a blusa. Não conseguia parar de olhá-la.

–E então? Qual é a surpresa?

–Bem, queria agradecer por me acomodar por aqui e também mudar um pouco o seu dia, resolvi preparar o jantar. Para jantarmos juntos tomando um bom e velho vinho –que encontrei na geladeira- ao som dos seus CDs prediletos de escrivaninha. E ah! À luz do luar. 

Seus olhos mostravam o quanto eu a surpreendera. Isso fora pouco do que eu ainda faria. Ela merecia todos os agrados desse mundão e desse homem que tanto a desejava. Eu a desejava... Não possuí-la, mas energizá-la. Tirar d’alma essa ferida e banhá-la de felicidade. Suprir o seu prazer. O meu prazer. E ser junto a ela muito mais do que fui só e livre.

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