Ela estava gargalhando e viajando em seu particular prazer.
Jordana era uma mulher indecifrável, eu a surpreendi, mas quem se afogou na
mais pura sensação de liberdade fui eu. Sortudo, ô se sou! O cara mais sortudo
desse mundo em tê-la por perto, em tê-la no peito.
Precisava do seu espaço, senti isso desde o momento que a
observei no bar. Pensativa demais, às vezes preciso intervir ou a mente dela
acaba virando um dragão que tenta comer tudo que enxerga pela frente. Uma
caixinha de surpresas, daquelas que ao se abrir afagam a alma e atraem os
olhos.
Seguindo viagem. Mas todo lugar era nosso lar.
Eu continuava dirigindo, ouvindo o cd que ela gravara para
mim há alguns meses. Meu deus, que lunática! Músicas do MPB a instrumentais,
variação de humores e sensações em uma playlist só. Às vezes eu olhava do canto
d’olhos para ela, estava imersa, pensando em algo, alguém, lembrando ou só
sentindo. Sentir era sua paixão. Sentir amor, perdão, dor, medo, sentir, sentir
a tornava viva.
Há dois anos Jordana tornara-se a estrela que brilha o tempo
todo em meu céu. A noite vira dia, e o paraíso vira um inferno quando ela
penetra seus olhos em mim. Era de se esperar? Acho que não. Eu não entraria no
apartamento de outra mulher, eu não faria nada que fiz por ela. Existe algo que
me levou até seus braços, ou até àquele bar.
De todos os lugares que eu visitara seu corpo e mente eram
os mais libertadores. Chamavam-me de “nômade”, sempre mudara: de emprego, de
cidade, amigos, fuso-horário e comidas prediletas. E logo o perfume dela não me
enjoara, o sorriso, a ternura e confusão ou sequer da pinta no dedo médio.
Minha liberdade sempre fora movida pela minha instabilidade, ansiedade de
estar, mudar, deixar de ser e logo retornar (...) as madeixas castanhas e seu
toque imploraram minha presença, ou na realidade, eu implorara para que ela não
se enjoasse.
Em dois mil e dez, depois de topar-me com Jordana meus dias
pareciam nublados –mas não aquele nublado que agrada, aquele que deprime-
Não saber sobre seus dias e sua saúde espiritual me deixava
completamente perdido. Estava perdido nas horas, nos dias, e nos lugares que eu
adorara explorar, perdido num mundo que eu me adaptara a viver, como era possível?
Decidi então arrumar as malas. Entraria em seu apartamento e a tomaria um
abraço, talvez um beijo e alguns petiscos da cozinha. Foi mais ou menos isso
que eu fiz, só que sem a parte do afeto, a fome foi maior naquele momento.
–Onde deixo as malas?
- Queria que ela falasse “No quarto do lado da minha cama”, mas ela não
o fez, era óbvio.
–Na sala ou na lavanderia, onde preferir!
Sempre me dava duas ou mais opções. Inteiramente indecisa. “Onde
coloco o quadro? Qual roupa visto? Curto ou comprido? Azul ou verde? Eu digo
que ele foi estúpido ou fico quieta?”. Jordana, querida... Um coala em
extinção, preocupada com os outros e seus sentimentos, não importava se
estivera triste, deprimida ou angustiada, o mundo era seu lar e ela acolhia com
suas palavras qualquer pessoa, a criança que chorava ou a planta descuidada do
vizinho.
Nessa noite dormi no sofá com a companhia de Bob que dormia no
tapete da sala. Demorei um pouco para pegar no sono, afinal, eu ainda não
acreditara nas aventuras que essa cidade e essa mulher me fizeram encarar. Ela
estava deitada na cama, provavelmente com alguma camiseta dois tamanhos acima
do seu, coberta e com o ventilador ligado e a janela aberta. Que alvoroço.
Pensei em deitar-me na cama, devagar, ela nem perceberia, afinal, dormia como
uma pedra que a maré batia, batia e mal fora desgastada por anos. Eu só pensei.
E dormi.
Sonhei com seu corpo. E meu corpo. Acho que estavam juntos.
E então você me b... –Fred, acorde! Acorde! Preciso que tranque a porta do
apartamento assim que eu sair para a faculdade.
A luz vinha da sacada assim como uma brisa gostosa que
dançava pela sala, cozinha e seguia. Havia observado a escrivaninha no dia
anterior... Ela colecionava livros e alguns bonecos de porcelana. Tinha também
uma pilha de blusas de frio no outro sofá, e eu não entendi muito bem... Aquela
cidade era um vulcão em erupção, impossível usar tantos casacos, ou precisar
tanto deles. Finalmente fitei Jordana, olhos inchados com rímel mal passado,
nariz e bochechas corados devido ao clima matinal e uma extrema, rotineira preguiça.
–Finalmente acordou! Já estava pedindo aos deuses, santos e
até mesmo ao Bob para que alguma coisa acordasse você!
–É questão de jeito. Quando quiser me acordar rápido devido
a alguma emergência me faça cócegas ou me dê um beijo, das duas uma.
Eu tinha uma teoria: Falava tudo o que me desse na telha,
desde que não ferisse os sentimentos ou os direitos do receptor. Nascemos com
uma bomba relógio ativada em nossos pescoços, sem hora exata para explodir, sem
chance de falhar. A morte sempre fora consequência, isso nunca havia sido um
problema, o problema era deixar tudo para depois. Sensações, planos, amores.
Não fazia o meu tipo. Arriscar e ser honesto, isso sempre fora. Eu amava aquele
sorriso, desejava aquele beijo.
Ela sorriu e fechou a porta.
–Eu volto às oito da noite, tente não destruir a casa e
tranque a porta. –Gritava já do lado de fora.
Corri para a entrada, abri a porta e inclinei-me metade para
o lado de fora.
–Volte às cinco, marquei algo para fazermos.
–Não posso, preciso mesmo de grana esse mês.
–Para quê?
–Só preciso.
–Volte às 5h que lhe darei algo mais valioso que isso.
–Pensarei no seu caso. –Virou-se e sumiu descendo o
elevador.
Fiquei a tarde toda com Bob. Pesquisei sobre alguns lugares
maravilhosos localizados na Bahia; dormi, ouvi música; Percebera naquela tarde
o quanto era entediante sem ela. Sem os olhos dela supervisionando as manchas
no tapete e o cansaço em suas pálpebras.
Quase cinco horas. Fui até a cozinha e preparei minha
especialidade: Frango xadrez, arroz temperado e morangos picadinhos na salada
para dar um toque meio Fred.
Cinco e dez.
Cinco e vinte e cinco. Já estava quase comendo tudo sozinho.
Alguém batia na porta. Corri para abri-la. Deparei-me com
uma guriazinha exausta e desanimada, entrara no apartamento quase se arrastando
de sono? Talvez.
–Boa tarde! Você chegou mais cedo!
–Mas tão cansada quanto se chegasse às 20h. Preciso de um
banho, já volto.
Fui atrás dela antes que ela virasse para o banheiro, queria falar que havia feito o jantar e que não era para deixar com que a rotina dela estragasse seu humor. No meio do caminho ela começou a desabotoar a camiseta ainda direcionando-se ao banheiro. Pensei em continuar observando-a enquanto a mesma não se dava conta de que eu estava atrás dela, mas não me pareceu certo. Ela confiava em mim. Ou pelo menos parecia confiar.
Fui atrás dela antes que ela virasse para o banheiro, queria falar que havia feito o jantar e que não era para deixar com que a rotina dela estragasse seu humor. No meio do caminho ela começou a desabotoar a camiseta ainda direcionando-se ao banheiro. Pensei em continuar observando-a enquanto a mesma não se dava conta de que eu estava atrás dela, mas não me pareceu certo. Ela confiava em mim. Ou pelo menos parecia confiar.
Esperara ela por dez minutinhos, ao som ambiente de Oasis -
que havia encontrado em meio às bagunças dela-. Nem precisava olhar para saber
que estava chegando à cozinha, seu cheiro preencheu o cômodo, um cheiro suave
num degradê adocicado de morango. Vestia uma batinha branca, quase
transparente, que se moldava ao seu corpo de tal forma inexplicável. Pelo
quadril descia um short azul marinho ainda mais confortável que a blusa. Não
conseguia parar de olhá-la.
–E então? Qual é a surpresa?
–Bem, queria agradecer por me acomodar por aqui e também
mudar um pouco o seu dia, resolvi preparar o jantar. Para jantarmos juntos
tomando um bom e velho vinho –que encontrei na geladeira- ao som dos seus CDs prediletos
de escrivaninha. E ah! À luz do luar.
Seus olhos mostravam o quanto eu a surpreendera. Isso fora
pouco do que eu ainda faria. Ela merecia todos os agrados desse mundão e desse
homem que tanto a desejava. Eu a desejava... Não possuí-la, mas energizá-la.
Tirar d’alma essa ferida e banhá-la de felicidade. Suprir o seu prazer. O meu
prazer. E ser junto a ela muito mais do que fui só e livre.
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