Entrei no condomínio e desci até meu apartamento pensando. Deitei
no sofá e fiquei por lá olhando da janela ele se afastar, virou a esquina e
sumiu da minha vista. Não consegui tirá-lo da mente por longas e longas horas
naquela estúpida noite. Pensei, pensei a madrugada inteira, ou o que me restou
dela já que meu sono havia me abandonado.
Acordei e minha rotina voltará a seu devido lugar. Levantei
correndo, fiz o café enquanto escovava os dentes e colocava água para Bob,
deixei o café amargo e esqueci-me de passar o fio dental; vestia a camiseta de
academia, mas era o horário da faculdade, minhas manhãs eram uma loucura;
Ligava o som, dançava à caminho da cozinha, fritava o ovo e tomava o café.
Queimei a língua, taquei café na pia. O alarme tocou... Atrasava todas as
manhãs para fazer algo que eu nem sequer gostava de fazer.
Depois da faculdade eu corria para o trabalho e ficava lá
até o fim do horário comercial, às vezes - quase todos os dias-, fazia hora
extra, eu precisava ganhar um pouco mais (ou pelo menos achava isso). Aparelhos
eletrônicos de última geração que no dia seguinte já eram ultrapassados, as
roupas da “melhor marca” que passava meses pagando, eu realmente achava que
precisava de mais dinheiro. Dá para acreditar?
Os dias corriam e eu sentia a angústia escorrer pelo cansaço
mascarado de coragem. Eu nunca observara o céu tanto quanto depois que topei
com Fred. Lembrava-me dele quando sentava no sofá confortável depois de um dia
estressante e tudo que eu tinha para fazer além de dormir era observar a Lua se
posicionar bem no alto da minha sacada. Será que ele pensava em mim? Ou
lembrava?
Eu nada sabia de Federico... Só sabia que era um homem de
vinte e cinco anos que arrancava sorrisos e pagava drink’s que rendiam ótimas
conversas. Antes de dormir eu decidi que não pensaria mais nele, não fazia
sentido. Deitei a cabeça no travesseiro, uma, duas, cinco da matina e eu ainda tentava
me distrair até o sono fazer-me cair. Ele parecia música, aquela melodia que um
dia ouviu e não conseguiu esquecer mais, que o simples toque te faz lembrar de
todo o restante.
Precisava de distração, precisava ser racional e aceitar que
acabara. O típico romance-não-romance de uma noite, desses semelhantes a filmes
americanos que a gente chora no final. Dormi.
Sete da manhã e tocaram a campainha. Xinguei todos os
palavrões possíveis –mentalmente-, era domingo, quem levantava às sete da
matina num domingo?! Fiquei deitada e fingi que não ouvia nada, naquele momento
eu era uma porta, muda e surda.
–Por que você não abriu a porta para mim?
Pulei da cama em menos de cinco segundos e é claro que
segurando o lençol porque eu costumava dormir nua. Mas, eu conhecia aquela voz,
aquela doce e patética voz soava vinda da sala. Era o Fred. Meu deus! Meu
coração parou por alguns segundos, o sangue parecia frio o suficiente para
esquentar e resfriar em questão de milésimos. Aquilo era uma alucinação? Não me
drogara na noite passada, nem estava de ressaca, eu só jogara vídeo game, só.
–Jordana, diga-me que é você! Não quero invadir outro
apartamento, eu não tinha planos de ser preso hoje.
Federico! Fazia-me gargalhar como só ele soubera.
Ganhara-me. Invadindo meu apartamento, eu deveria ter ficado brava, mas fiquei
feliz; Feliz em saber que ele ainda lembrava.
–Como você conseguiu entrar aqui, Federico? –Gritei do
quarto em tom ríspido, para não parecer tão frágil.
–Fácil! Você assiste seriados policiais? Não foi difícil
aprender a abrir com grampos e outras bugigangas. Eu precisava saber como você
estava. E, aliás, onde você está?
Sentia vontade de matá-lo. Matá-lo em meus braços, de
abraços, amassos, na minha cama, cozinha, sala, sofá e sacada. Estava perdida
em seus olhos, que não eram verdes ou azuis, eram castanhos-quase-jabuticabas.
Seu jeito em andar e agir desajeitado e arriscado, e quando ele falava? Eu
queria que ele sussurrasse mil besteiras em meu ouvido todas as noites. Sai do
transe de querer e me vesti, coloquei um vestido florido, o primeiro que achei
na gaveta cheia de roupas amarrotadas.
–Estou no quarto, mas não se mova. Irei até você, fique na
sala, se é que est... –Ele revirara o armário, encontrara cereais e leite,
estava sentado no sofá com um pote imenso de leite e cereais, comendo como se
aquela fosse a sua casa. –O que você está fazendo?
–É óbvio que comendo, né? E nossa, seu sofá é muito macio.
Bob fazia companhia deitado aos pés de Fred, eu não
acreditei quando vi. Bob era o cachorro mais fofo do universo, mas só comigo. E
lá estava ele, deitado sendo acariciado pelos pés do guri.
–Você é bem folgado, sabia disso? Não suje o tapete ou te
faço lamber o chão.
–Fique calma, caso derrube o Bob lambe, igual fica lambendo
meu dedão do pé. –Gargalhava e descia seu olhar simples pelo meu corpo.
Desisti de fingir o que não estava sentindo. Queria estar
ali perto dele, e queria deixá-lo entrar em minha vida, de alguma forma, só não
sabia qual; Sentei ao seu lado, liguei a TV que chiava sem a antena que eu
ainda não comprara. Tudo bem. Desliguei. Cruzei as pernas. Revirei-me no sofá.
Ele continuara confortável, terminou de comer e deixou o pote na escrivaninha a
direita.
–Seus olhos sorriem para mim. Jordana, como consegue?
Estávamos tão próximos que eu conseguia notar sua respiração
estabilizada, enquanto eu quase vomitara meus pulmões. Aquele perfume! Não
esquecera por uma só noite. Seus olhos encontraram os meus durante pequenos
devaneios, senti-me arder e corar. Idiota, por que fazia isso? Perdia-me dentre
as palavras, respostas, perguntas, ele me desconsertava.
–Não há sorriso nenhum. Mas apesar disso, eu estou bem. Foi
apenas por isso que resolveu invadir meu apartamento?
Respirei fundo para não cair do sofá, olhei para a
escrivaninha e lá estavam duas malas. O que aquilo significava?
–Na verdade, Jordana,
além de querer saber sobre seu bem-estar... Vim para ficar alguns dias contigo.
Eu sou um cara misterioso, mas juro que vim trazer uma coisa muito boa para sua
vida, ou seus dias, como preferir.
–Sabe que eu posso te expulsar daqui nesse momento, não
sabe?
–Teria coragem? Vontade? Essa é a sua vontade, Jô? Se for,
eu irei.
Cretino! Ele era um cretino apaixonante! Eu o odiava! Como
poderia me encurralar em minha própria casa e virar contra a própria ideia?
–As regras são: dormirá no sofá; sem comida no tapete; não
dê doces ao Bob e não perturbe os vizinhos. Por favor!
–E se eu não obedecer?
–Corto suas genitálias. O que prefere?
–Prometo não bagunçar seu apartamento enquanto você estiver
no trabalho/faculdade, palavra de escoteiro!
Provavelmente me deixaria louca. Eu sabia disso e o pior de
tudo é que eu aceitava a condição. Ele chegou de surpresa, abriu –literalmente-
as portas de meu apartamento e disse que ficaria, bateu os pés imundos de
poeira até que eu concordasse com a sua estadia. Eu sabia que era algo
arriscado, mas logo eu que nunca fizera nada que sentira que era o certo, o que
tinha de errado em apostar nas cartas dessa vez? Afinal, eu tinha o lado
direito da cama vazio e muita comida na geladeira, algo se encaixava ali, eu
sabia que sim.
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