terça-feira, janeiro 13, 2015

Malas surpresas.

Entrei no condomínio e desci até meu apartamento pensando. Deitei no sofá e fiquei por lá olhando da janela ele se afastar, virou a esquina e sumiu da minha vista. Não consegui tirá-lo da mente por longas e longas horas naquela estúpida noite. Pensei, pensei a madrugada inteira, ou o que me restou dela já que meu sono havia me abandonado.

Acordei e minha rotina voltará a seu devido lugar. Levantei correndo, fiz o café enquanto escovava os dentes e colocava água para Bob, deixei o café amargo e esqueci-me de passar o fio dental; vestia a camiseta de academia, mas era o horário da faculdade, minhas manhãs eram uma loucura; Ligava o som, dançava à caminho da cozinha, fritava o ovo e tomava o café. Queimei a língua, taquei café na pia. O alarme tocou... Atrasava todas as manhãs para fazer algo que eu nem sequer gostava de fazer.

Depois da faculdade eu corria para o trabalho e ficava lá até o fim do horário comercial, às vezes - quase todos os dias-, fazia hora extra, eu precisava ganhar um pouco mais (ou pelo menos achava isso). Aparelhos eletrônicos de última geração que no dia seguinte já eram ultrapassados, as roupas da “melhor marca” que passava meses pagando, eu realmente achava que precisava de mais dinheiro. Dá para acreditar?

Os dias corriam e eu sentia a angústia escorrer pelo cansaço mascarado de coragem. Eu nunca observara o céu tanto quanto depois que topei com Fred. Lembrava-me dele quando sentava no sofá confortável depois de um dia estressante e tudo que eu tinha para fazer além de dormir era observar a Lua se posicionar bem no alto da minha sacada. Será que ele pensava em mim? Ou lembrava?

Eu nada sabia de Federico... Só sabia que era um homem de vinte e cinco anos que arrancava sorrisos e pagava drink’s que rendiam ótimas conversas. Antes de dormir eu decidi que não pensaria mais nele, não fazia sentido. Deitei a cabeça no travesseiro, uma, duas, cinco da matina e eu ainda tentava me distrair até o sono fazer-me cair. Ele parecia música, aquela melodia que um dia ouviu e não conseguiu esquecer mais, que o simples toque te faz lembrar de todo o restante.

Precisava de distração, precisava ser racional e aceitar que acabara. O típico romance-não-romance de uma noite, desses semelhantes a filmes americanos que a gente chora no final. Dormi.

Sete da manhã e tocaram a campainha. Xinguei todos os palavrões possíveis –mentalmente-, era domingo, quem levantava às sete da matina num domingo?! Fiquei deitada e fingi que não ouvia nada, naquele momento eu era uma porta, muda e surda.

–Por que você não abriu a porta para mim?

Pulei da cama em menos de cinco segundos e é claro que segurando o lençol porque eu costumava dormir nua. Mas, eu conhecia aquela voz, aquela doce e patética voz soava vinda da sala. Era o Fred. Meu deus! Meu coração parou por alguns segundos, o sangue parecia frio o suficiente para esquentar e resfriar em questão de milésimos. Aquilo era uma alucinação? Não me drogara na noite passada, nem estava de ressaca, eu só jogara vídeo game, só.


–Jordana, diga-me que é você! Não quero invadir outro apartamento, eu não tinha planos de ser preso hoje.

Federico! Fazia-me gargalhar como só ele soubera. Ganhara-me. Invadindo meu apartamento, eu deveria ter ficado brava, mas fiquei feliz; Feliz em saber que ele ainda lembrava.

–Como você conseguiu entrar aqui, Federico? –Gritei do quarto em tom ríspido, para não parecer tão frágil.

–Fácil! Você assiste seriados policiais? Não foi difícil aprender a abrir com grampos e outras bugigangas. Eu precisava saber como você estava. E, aliás, onde você está?

Sentia vontade de matá-lo. Matá-lo em meus braços, de abraços, amassos, na minha cama, cozinha, sala, sofá e sacada. Estava perdida em seus olhos, que não eram verdes ou azuis, eram castanhos-quase-jabuticabas. Seu jeito em andar e agir desajeitado e arriscado, e quando ele falava? Eu queria que ele sussurrasse mil besteiras em meu ouvido todas as noites. Sai do transe de querer e me vesti, coloquei um vestido florido, o primeiro que achei na gaveta cheia de roupas amarrotadas.

–Estou no quarto, mas não se mova. Irei até você, fique na sala, se é que est... –Ele revirara o armário, encontrara cereais e leite, estava sentado no sofá com um pote imenso de leite e cereais, comendo como se aquela fosse a sua casa. –O que você está fazendo?

–É óbvio que comendo, né? E nossa, seu sofá é muito macio.

Bob fazia companhia deitado aos pés de Fred, eu não acreditei quando vi. Bob era o cachorro mais fofo do universo, mas só comigo. E lá estava ele, deitado sendo acariciado pelos pés do guri.

–Você é bem folgado, sabia disso? Não suje o tapete ou te faço lamber o chão.

–Fique calma, caso derrube o Bob lambe, igual fica lambendo meu dedão do pé. –Gargalhava e descia seu olhar simples pelo meu corpo.

Desisti de fingir o que não estava sentindo. Queria estar ali perto dele, e queria deixá-lo entrar em minha vida, de alguma forma, só não sabia qual; Sentei ao seu lado, liguei a TV que chiava sem a antena que eu ainda não comprara. Tudo bem. Desliguei. Cruzei as pernas. Revirei-me no sofá. Ele continuara confortável, terminou de comer e deixou o pote na escrivaninha a direita.

–Seus olhos sorriem para mim. Jordana, como consegue?

Estávamos tão próximos que eu conseguia notar sua respiração estabilizada, enquanto eu quase vomitara meus pulmões. Aquele perfume! Não esquecera por uma só noite. Seus olhos encontraram os meus durante pequenos devaneios, senti-me arder e corar. Idiota, por que fazia isso? Perdia-me dentre as palavras, respostas, perguntas, ele me desconsertava.

–Não há sorriso nenhum. Mas apesar disso, eu estou bem. Foi apenas por isso que resolveu invadir meu apartamento?

Respirei fundo para não cair do sofá, olhei para a escrivaninha e lá estavam duas malas. O que aquilo significava?

 –Na verdade, Jordana, além de querer saber sobre seu bem-estar... Vim para ficar alguns dias contigo. Eu sou um cara misterioso, mas juro que vim trazer uma coisa muito boa para sua vida, ou seus dias, como preferir.

–Sabe que eu posso te expulsar daqui nesse momento, não sabe?

–Teria coragem? Vontade? Essa é a sua vontade, Jô? Se for, eu irei.

Cretino! Ele era um cretino apaixonante! Eu o odiava! Como poderia me encurralar em minha própria casa e virar contra a própria ideia?

–As regras são: dormirá no sofá; sem comida no tapete; não dê doces ao Bob e não perturbe os vizinhos. Por favor!


–E se eu não obedecer?

–Corto suas genitálias. O que prefere?

–Prometo não bagunçar seu apartamento enquanto você estiver no trabalho/faculdade, palavra de escoteiro!


Provavelmente me deixaria louca. Eu sabia disso e o pior de tudo é que eu aceitava a condição. Ele chegou de surpresa, abriu –literalmente- as portas de meu apartamento e disse que ficaria, bateu os pés imundos de poeira até que eu concordasse com a sua estadia. Eu sabia que era algo arriscado, mas logo eu que nunca fizera nada que sentira que era o certo, o que tinha de errado em apostar nas cartas dessa vez? Afinal, eu tinha o lado direito da cama vazio e muita comida na geladeira, algo se encaixava ali, eu sabia que sim.

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