Jantamos. A luz da Lua ou do pôr do Sol, ou dos dois juntos.
Eu a observava, não havia com o que comparar, era extraordinária até cansada.
Mas ainda sentia que ela precisava de tempo. Tempo para si, sem pensar em nada,
nem ninguém. E infelizmente, talvez, isso me incluía.
Os traços de Jordana faziam jus a seu nome forte. Demarcada
pelo vento, exalando injustiça, desespero; Não fora à guerra alguma, mas
nascera mulher num mundo desumano. Suas maças do rosto coradas, seus olhos
pequenos, pesados e vermelhos do Sol.
Levemente doce, tão doce, mas o tipo de drinque amargo ao
primeiro gole. Com ternura e prazer eu a beberia. Onde tudo iria parar? Eu
pensava e nada mudava. Era atenta ao mundo e desatenta com sua vida, ou sequer
seus dias.
Passei o jantar olhando-a e pensando numa solução para
aquele martírio que sua vida se tornara. Uma solução que não me afastasse dela.
(Mas não a deixei falando sozinha, nem nada do gênero)
–Você gosta tanto assim das estrelas?
Como ela me perguntara tal coisa? Oh pequenina...
–Posso não saber muito sobre elas, posso gostar apenas da
luz e do calor que elas nos enviam... Eu não sei ao certo o porquê, mas
tornaram-se amantes do meu lar e vida.
Quase não me encarava, ficava ali, sentada ao meu lado, na
sacada, olhando os brilhos no céu. No que pensava? Ou será que só sentia-se
confortável? ... Ao meu lado?!
Tudo aquilo me encantava. O silêncio. Ela recostada na sacada como se nada pudesse acabar com aquela imensidão, a imensidão que pairava no ar
e que a mesma inspirava a magia da calmaria.
Menina mulher, Jordana, era uma onda intensa, altruísta,
traiçoeira, e então quebrava como se mais nada importasse, deixando-se pra lá,
estar, voltando à sua embaçada vastidão. Emoção. Mar.
Mas naquela noite soubera que teria de ser Jordana, para
caminhar uns bocados e aprender com os dias; Encostara suas bochechas em meu
colo, deitara-se lenta, vagarosa (...) dava pra sentir e focar-se no momento.
Parecia assustada, mas encantada... E a pele gelada em conflito com a minha
quente.
Olhei-a e resolvi fechar os olhos assim como ela também
fechara. Seu aroma. Seu pesar e sonhar. Inclinei a cabeça para trás, abri os
olhos para o céu, o nosso céu. E do mundo.
Sem sequer perceber já passava as mãos delicadamente por
seus cabelos; sua respiração se intensificava, seus olhos fraquejaram,
insistiram. Deixava-se. Sem casca. Nua. Nua n’alma sob meu ser.
Fio a fio escorregara entre meus dedos até que os mesmos
colidiram com sua pele, e ela sorrira. Solto. Suspirava. Abrira os olhos,
encarava-me com a afeição terna e sexy. Como essa mulher conseguira? Deixar-se
menina pela eternidade?!
–O silêncio não te incomoda? – falava e se ajeitava em mim.
–Não muito, na realidade, nenhum pouco. Eu gosto de estar
imerso em qualquer pensamento ou situação que me deixe bem. Como o agora.
–Você é meio poético deprimido ou é só para me conquistar? –
Gargalhava.
–Então é apaixonada por martírios pessoais? Ou tem uma tara
por poetas?
–Diga-se de passagem, que os dois são intrigantes à sua
maneira! Ora!
Jantamos e ainda estávamos famintos. Famintos pela conversa,
pela vida um do outro e pela forma com que nossa sincronia flutuava. De bom, de
ruim, falava-se do Nordeste e do Sul, e daí a noite virava madrugada e a
madrugada desejava-nos. Deitados no chão da sacada. Rindo. Eu gostava (e gosto)
de ouvir a voz dela... Que por acaso pegou no sono pela milésima vez nessa
viagem.
Estávamos perto de nossa primeira parada definitiva; Um
hostel que encontramos numa cidadezinha chamada Balneário Arroio da Silva, em
Santa Catarina.
Parei o carro duas quadras da maresia. Olhando ela dormindo assim, tão serena, não há como me concentrar em outra coisa... além do vento acariciando seus cabelos e ela toda desleixada, desconfortável deitada no banco todo inclinado. Ainda me pergunto: Como ela consegue me fazer endoidecer com sua simplicidade?
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