Como pudera viver desta maneira? Talvez a melhor, para mim.
Fred tinha correntes sem sequer me prender a ele. Ele fizera arte. Criara meu
mundo das nuvens ao quadril. Os arbustos são pinceladas de Monet, nossas curvas
provêm do cubismo de Picasso. E nossas cores, tom de pele e maciez das belas
mãos de Tarsila do Amaral. É arte, supérflua ou não, não me importo. Eu vou
passeando. De quadro à quarto. De pincelada à escultura. Do mundo à sua voz. E
seu corpo. Carnal. Alma. Karma.
Resolvi sentar na calçada e esperar com que a bela
adormecida acorde. Que isso, ele dirigira a madrugada toda... Merece mais do
que algumas horas de sono.
Parei de esperar. Voltei a navegar em mim.
Naquela madrugada amanhecemos juntos em outro plano, num sonho
embaçado pela fumaça do cigarro.
Eu o desejava além do astral, e além de qualquer pele.
Ansiava seu ser em mim. Comigo. Sujo. Puro. Seja lá o que for, se me faria bem,
que diabos a sociedade continuara colocando vírgulas e regras dentre a nossa
paixão estranha ao ponto de vista natural?! É só o prazer. Não completo, mas
complexo e feroz? Amargo e doce, iludindo as papilas gustativas.
Acordara no chão da sala com a sacada. Com ele respirando
perto de meu pescoço, terno, amassado. Arrepiara por vê-lo e senti-lo.
Engatinhei até o sofá, e me apoiei no mesmo para levantar.
Levantara. Meio tonta de sono e vinho fui até meu quarto, afastei o edredon e
preparei a cama para que alguém se deitasse. Voltei à sala, e resolvi acordar
Fred com um beijo na bochecha esquerda. E não é que dera certo?
Fora instantâneo. Houve “smack” e ele abrira os olhos,
devagar, bocejando, mas no instante em que meus lábios encostaram em seu rosto.
Ele se levantou e eu o guiei até meu quarto, deitei-o na
cama e o cobri, logo em seguida deitei ao seu lado, sem receio de qualquer
coisa. E por que teria?
Virei meu rosto para próximo do dele, e agarrei seu braço
direito num afago e conforto; ele já caíra no sono, ou estava aproveitando o
momento como eu?! Aproximei-me mais um pouco. Um pouco mais. E o selei. Num
beijo curto, sem estalar, suave com o desejo que não falava por mim.
Eu soubera. Ele fingira.
Aos poucos me envolvera em seus braços. Chocara-se em meu
corpo. Não recuara. Pra que hesitar?
Enterrou suas mãos em meus cabelos, sem descolar seus lábios
dos meus. De saudade. De vontade. Do nosso beijo que não ocorrera, só naquele
momento. Finquei-lhe as unhas, pelo prazer de tê-lo em mim. Não deixaria
partir. Por favor. Eu implorava ao gemer. Baixo, pra mim. E suspirava ao pé d’orelha.
O rasgara a pele, as costas. Querendo mergulhar em suas gotas de suor. Sua boca
passara por meu pescoço aumentando meu desespero. A pele arrepiara, enquanto
ele me tocara. E mordiscava cada milímetro de meu corpo. Descendo. Suas mãos
seguravam minha cintura, ele quase estirado em mim. Montado. A língua passeara
pelos seios, pela barriga e empacaram em outros lábios; Meu deus! Entre minhas
pernas, ele as beijava e subira. Voltara. Invadiu-me. Pirara. Mordia meu lábio
para não o morder por inteiro.
E eu lhe puxara para perto, bem mais perto. Odiara a
distância, onde o pouco se tornara muito. Não queria deixá-lo encarar nossos
dias. Queria prová-lo da cabeça aos pés. Sentir seu perfume se espalhando pela
cama, assim como ele se espalhara em mim.
Suas mãos pararam em minha bunda. Sim. Talvez não tão fixas assim...
Seus dedos estalavam na pele. Marcaram. E no auge daquilo que eu nem sei
explicar, a euforia, o gozo e a sincronia nos fizeram viajar. Viajar sem sequer
sair de meu quarto.
Aquele homem transformara minha vida num inferno. Quente e
ardente. Onde cada segundo valia a pena. Onde todo o toque valia o risco. E com
ele tudo era por se arriscar. Aprendia aos poucos a deixar de ser covarde. Nem
sempre encarava meus medos, mas comecei a enxergar além do que o mundo me
mostrava, porque na realidade, o mundo sempre me mostrara além e eu teria de me
acostumar a não viciar meus olhos em apenas um ponto de vista. Aquele inferno
era magnífico.


Meu Deus, fiquei perplexo e excitado ao mesmo tempo, tamanha identificação que tive com esse texto.
ResponderExcluirSeu admirador secreto, Mr. T.