domingo, março 01, 2015

Inferno magnífico.

Como pudera viver desta maneira? Talvez a melhor, para mim. Fred tinha correntes sem sequer me prender a ele. Ele fizera arte. Criara meu mundo das nuvens ao quadril. Os arbustos são pinceladas de Monet, nossas curvas provêm do cubismo de Picasso. E nossas cores, tom de pele e maciez das belas mãos de Tarsila do Amaral. É arte, supérflua ou não, não me importo. Eu vou passeando. De quadro à quarto. De pincelada à escultura. Do mundo à sua voz. E seu corpo. Carnal. Alma. Karma.

Resolvi sentar na calçada e esperar com que a bela adormecida acorde. Que isso, ele dirigira a madrugada toda... Merece mais do que algumas horas de sono.

Parei de esperar. Voltei a navegar em mim.

Naquela madrugada amanhecemos juntos em outro plano, num sonho embaçado pela fumaça do cigarro.

Eu o desejava além do astral, e além de qualquer pele. Ansiava seu ser em mim. Comigo. Sujo. Puro. Seja lá o que for, se me faria bem, que diabos a sociedade continuara colocando vírgulas e regras dentre a nossa paixão estranha ao ponto de vista natural?! É só o prazer. Não completo, mas complexo e feroz? Amargo e doce, iludindo as papilas gustativas.

Acordara no chão da sala com a sacada. Com ele respirando perto de meu pescoço, terno, amassado. Arrepiara por vê-lo e senti-lo.

Engatinhei até o sofá, e me apoiei no mesmo para levantar. Levantara. Meio tonta de sono e vinho fui até meu quarto, afastei o edredon e preparei a cama para que alguém se deitasse. Voltei à sala, e resolvi acordar Fred com um beijo na bochecha esquerda. E não é que dera certo?

Fora instantâneo. Houve “smack” e ele abrira os olhos, devagar, bocejando, mas no instante em que meus lábios encostaram em seu rosto.

Ele se levantou e eu o guiei até meu quarto, deitei-o na cama e o cobri, logo em seguida deitei ao seu lado, sem receio de qualquer coisa. E por que teria?

Virei meu rosto para próximo do dele, e agarrei seu braço direito num afago e conforto; ele já caíra no sono, ou estava aproveitando o momento como eu?! Aproximei-me mais um pouco. Um pouco mais. E o selei. Num beijo curto, sem estalar, suave com o desejo que não falava por mim.


Eu soubera. Ele fingira.

Aos poucos me envolvera em seus braços. Chocara-se em meu corpo. Não recuara. Pra que hesitar?
Enterrou suas mãos em meus cabelos, sem descolar seus lábios dos meus. De saudade. De vontade. Do nosso beijo que não ocorrera, só naquele momento. Finquei-lhe as unhas, pelo prazer de tê-lo em mim. Não deixaria partir. Por favor. Eu implorava ao gemer. Baixo, pra mim. E suspirava ao pé d’orelha. O rasgara a pele, as costas. Querendo mergulhar em suas gotas de suor. Sua boca passara por meu pescoço aumentando meu desespero. A pele arrepiara, enquanto ele me tocara. E mordiscava cada milímetro de meu corpo. Descendo. Suas mãos seguravam minha cintura, ele quase estirado em mim. Montado. A língua passeara pelos seios, pela barriga e empacaram em outros lábios; Meu deus! Entre minhas pernas, ele as beijava e subira. Voltara. Invadiu-me. Pirara. Mordia meu lábio para não o morder por inteiro.

E eu lhe puxara para perto, bem mais perto. Odiara a distância, onde o pouco se tornara muito. Não queria deixá-lo encarar nossos dias. Queria prová-lo da cabeça aos pés. Sentir seu perfume se espalhando pela cama, assim como ele se espalhara em mim.



Suas mãos pararam em minha bunda. Sim. Talvez não tão fixas assim... Seus dedos estalavam na pele. Marcaram. E no auge daquilo que eu nem sei explicar, a euforia, o gozo e a sincronia nos fizeram viajar. Viajar sem sequer sair de meu quarto.

Aquele homem transformara minha vida num inferno. Quente e ardente. Onde cada segundo valia a pena. Onde todo o toque valia o risco. E com ele tudo era por se arriscar. Aprendia aos poucos a deixar de ser covarde. Nem sempre encarava meus medos, mas comecei a enxergar além do que o mundo me mostrava, porque na realidade, o mundo sempre me mostrara além e eu teria de me acostumar a não viciar meus olhos em apenas um ponto de vista. Aquele inferno era magnífico.

Um comentário:

  1. Meu Deus, fiquei perplexo e excitado ao mesmo tempo, tamanha identificação que tive com esse texto.
    Seu admirador secreto, Mr. T.

    ResponderExcluir