segunda-feira, janeiro 12, 2015

Suspirar (sorr)indo.

Eu o explodira. Recolhera os pedaços, e hoje a manta que nos aquece têm suas dores e vitórias. Ele era um homem e tanto, e que homem...

Naquela manhã Fred tornou-se um mapa a se explorar. E é claro que eu exploraria, caindo dos penhascos, navegando e retornando à praia. Recolhendo cada grão e deixando tudo em seu devido lugar, em seu corpo e mente; Falara o suficiente para silenciar-se um tempo.

Perante nosso silêncio confortavelmente macio aprofundei-me nas nuvens. Uma delas tinha formato de pássaro, outra de dinossauro e ora, ora! Havia uma bem semelhante ao formato de um cachorro. Ela me lembrara Bob, que vontade de abraçar e sentir ele me acordando pela manhã ou até mesmo pulando na cama durante uma tempestade cheia de trovões... Ele ficara aos cuidados de minha mãe, então tentei não me preocupar tanto.

 Fiz um coque com as próprias madeixas e retornei os olhos ao céu, imensidão maravilhosa! Coloquei a mão direita para fora do carro, eu sempre gostei de sentir o vento trazendo as gotículas de chuva contra o meu corpo, afinal, qualquer sensação era um início, ou um fim, mas era algo e isso me atraia.
Por anos não sentira nada além de angustia, a minha rotina fora caótica e eu acabava destruindo as coisas (e pessoas) que tocava. Foi assim por muito tempo, até a noite em que eu e Fred tivemos nosso primeiro encontro-desencontro-perfeitamente-sincronizado, sim, nomeamos a aparição desse anjo em minha vida (e da minha confusão na vida dele).

Novembro de dois mil e dez, bendito seja esse ano! –Gargalhava sozinha e Fred olhava com o canto dos olhos sem entender nada- Estava sentada num bar em plena quinta-feira. Eu havia faltado da faculdade, que odiava cursar, para espairecer os miolos que fritavam meu cérebro. Alguém havia me magoado -como de costume- e eu decidi encher a cara de cerveja e frangos entupidores de artérias. Lembro de observar o ambiente, gente bebendo, se beijando, cantando no karaokê e até mesmo jogando sinuca; Cada um se divertia ou afogava os dias à sua maneira, e essa era a minha. Observar.

Pode soar meio deprimente, eu sei! Sentada, sozinha, num bar, com a mão toda engordurada de frango, mas várias portas se abriram pra mim naquele dia, principalmente a do banheiro, eu precisava muito lavar as mãos e mijar, sim, mijar, não me venha com essa de “fazer xixi”, eu elimino meus líquidos da maneira que quiser. Recapitulando: fui ao banheiro, lavei as mãos e voltei ao mesmo banco. Eu precisava chorar com alguém e dizer o quanto aquele maldito me magoara e todo aquele blábláblá chato de fim de relacionamento, mas foi melhor ficar calada. Sempre fiquei calada quando meus sentimentos estavam em jogo, ou quando jogavam eles no lixo –o que dava quase na mesma-.


Eu já havia perdido as contas de quantas cervejas bebera, tocava Led Zeppelin, Hot Dog para ser mais específica e as coisas pareciam girar um pouco. Permaneci olhando os participantes do jogo de sinuca e... Quem estava lá?! Oliver. Maldito. Aquele maldito, isso mesmo! Olhar seu rosto e sentir seu cheiro de usina me fez querer vomitar, além de me lembrar das mentiras que contara durante um ano e meio de namoro... Não posso negar que meus olhos marejaram e lágrima por lágrima pulava dos olhos castanhos como cachoeira inundando tudo.

Desviei o rosto para o balcão, encarei o garçom por alguns instantes e decidi que não choraria, e não chorei. Um cara sentou ao meu lado, mas nem me dei ao trabalho de olhar seu físico, então ouvi o mesmo chamando o garçom e pedindo duas cervejas. Olhava para mim –dava para perceber- e então disse:

– Olá, garota? Posso te chamar assim? A menos que queira me dizer seu nome, é claro. Pedi duas cervejas e estou só, quer me acompanhar em uma conversa qualquer e beber comigo?

Eu sorri, ri, não sei ao certo, mas foi a primeira afeição alegre naquele dia infernal. Ele fora engraçado, patético, estúpido e sensível em uma única frase. Decidi não ser grossa e cá entre nós? Não havia nada a perder, além do tempo que apesar de ter pouco, naquela noite eu tinha muito.

–Oi, me chamo Jordana, mas se quiser me chamar de garota poderá, fica a seu critério. Aceito o convite, então comece.

Fui seca mesmo sem ter esse intuito, condenei-me por alguns minutos e logo percebi que ele pouco se importou, parecia estar acostumado com tais comportamentos.

–Bem, Jordana, não perguntarei como estás, pois sei que não me dirá a verdade, dirá algo para que eu não continue o assunto, e pelo que percebi você não está tão feliz.

O quê? Ele estava presente no bar há quanto tempo? Ficou me observando por quê? Será que era um maníaco?

– E desde quando você sabe como estou? Ora, que patético.

–Jordana, te observei desde que entrei aqui, quieta, observando como observo, mas distraída o suficiente para não me notar. Entendo que dias ruins existem, mas você sabe que pode se livrar de certas angústias, não sabe?

– Você não sabe pelo o que estou passando. Não se intrometa.

Eu não havia perguntado seu nome porque inicialmente não me importara muito. Agora? Talvez um pouco. Ele era insolentemente delicado dedicando seu tempo para servir de psicólogo para uma desconhecida?!

– Eu não me importo com a sua grosseria, ela me deixa mais interessado em você. Não serei mentiroso ao ponto de dizer que seus olhos não me chamaram e que sua boca que pouco se move é ainda mais tentadora, mas de que lhe adianta ter toda essa beleza com um semblante tão maçante? És tentadora, mas mórbida, sei que existe algo além disso.

(Fred) Fez algo comigo naquele momento. Naquele dia. Nessa vida. Eu nem sequer queria saber seu nome no começo da noite e então ele decidiu virar as cartas. Olhava-me com ternura e excitação, buscou em mim algo que nem sequer Oliver buscara. Eu não sabia como reagir àquelas palavras e aquele homem que eu mal conhecia.

–Como se chama?

Ele sorriu. Eu juro que o bar balançou, as mesas tremeram mais que minhas mãos pegando o copo. Como ele não havia feito isso antes? Sorrir! Foi desajeitado, de lado e meio amarelado, mas espontâneo.

–Federico, mas pode me chamar de Fred. Prazer, garota dos olhos de ressaca.

–Ora! Isso foi um elogio?

–Não desconverse comigo. Eu sou um homem persistente, sei que há algo em você ainda mais encantador que seus olhos e gostoso que seu perfume.

Não pude conter uma gargalhada, ele era charmoso e se arriscava demais no que falava. Eu gostava disso.

–Sabia que encontraria essa noite em alguém, e logo em você.

–O quê? -Meu rosto parecia ter um ponto de interrogação gigantesco depois disso, ficara maluco de uma hora para a outra?

–Seu sorriso. Sai à procura de algum, pode parecer estranho, mas arrancar sorrisos é meu maior e melhor hobbie, depois de me engordurar com frango, né?

Dei um tapa no ombro dele pela piadinha sem graça, foi patético, mas engraçado, só um pouco. Odiava gostar da maneira que ele encarava meus olhos, foram só algumas horas de conversa, era impossível –para mim- admitir se encantar por alguém nesse meio tempo. Notei que começara a olhar ele da mesma maneira, ou quase da mesma que ele me olhava, eu precisava ir embora, isso era ridículo.

–Preciso ir, até um dia qualquer e obrigada pela companhia.

Ele parecia meio perdido, como se não soubesse o que havia feito de errado. Mas eu era o erro, ou pelo menos minha paranóia repetia isso.

–Posso acompanhar você até sua casa?

–Pode... –Cedi-

Pagamos a conta. Saímos. Ele se posicionou ao meu lado e ficou em silêncio, e era estranho, o silêncio não me incomodava. O céu estava extremamente estrelado, sentia a brisa leve acariciar-me o rosto e esvoaçar o cabelo, às vezes ele olhava para mim e logo retornava os olhos ao caminho. Foram as melhores duas quadras que eu caminhei ao lado de alguém e sem dizer nada.


–Chegamos!

–Você mora em qual apartamento? Caso eu queira te visitar qualquer dia desses.

–Eu moro no apartamento 26, no bloco 2.

–Então, boa noite, Jordana!

Não sei se foi instintivo, mas eu sentia uma vontade imensa de beijá-lo ali frente a portaria mesmo. Não me importava quem passaria ou olharia, eu só o queria. Da maneira mais bizarra e impulsiva possível. Respirei, contei até dez mentalmente, percebi que ficara calada e aquilo sim era estranho.

–Boa noite, Fred!

Quando virei para entrar ele me enlaçou em seus braços e eu morei em seu abraço que mais parecia minha casa, queria permanecer por ali. Percebi que não precisava do beijo, precisava do toque, da ternura e doçura que ele tinha e quase não transparecera. Ele era doce e amargo ao mesmo tempo, aquilo me intrigava, eu o desejava, mas desejava a sua sincronia e energia.

–Eu preciso ir. –Meu receio era maior que minha vontade, sai de seus braços e entrei no apartamento.

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