sábado, fevereiro 02, 2013

Gordo.

Um corpo fora de seu controle, meu corpo. As mãos tremulas, o coração que quase saltava do peito, as pernas que voltaram a participar da síndrome de pernas inquietas. Sinto dizer-te, não sou uma viciada, os sintomas parecidos por acaso coincidiram, bem até, mas a abstinência não é a resposta, poética pode até ser, mas não, eu não o faria.
Levei minhas mãos aos bolsos da calça, na esperança de encontrar alguma moeda, algo relacionado a valores em pleno século XXI em que sobrevivemos, missão falha, tão pedinte quanto a um presidiário destinado à execução, solteiro, pai de quatros filhos, dependente químico e culpado por homicídio doloso.
É, definiria a situação como complicada, ou até mais que isso, já se passaram duas horas e meu chapéu continua a minha frente sem um tostão qualquer, o colega de infância tocando clássicos que atualmente não interessa mais a ninguém, eu poderia viver dessa música, viver de música e com ela se o futuro não fosse tão incerto e decepcionante, afinal. (Já fazia do presente mais que uma tortura.)
Meus olhos pesam mas a insônia admira os borrões pretos abaixo dos mesmos, os pensamentos são absurdamente assustadores e eu me sinto como se fosse navegar neles caso tente descansar. (Mesmo tentando e falhando)
Fraco e com muita fome!
Ajoelhei então na imunda calçada e por um minuto desejei não desejar nada. Por que anseio tanto por estes princípios? Poderia seguir em frente, a solidão é a melhor amiga do homem que nunca encontrou um lar para voltar.
Os pais se foram quando o mesmo completara 19 anos, um lar que não lhe pertencia mais: o colo materno.
Seus olhos estavam acostumados com a escuridão da cidade, que além de enxergar além a mesma já não parecia lhe desencorajar...
Eu não tenho forças, talvez 20% de vida externa liberando energia radiante. Pés, direita, esquerda, direita, esquerda. Que olhar encantador, "sinto termos 'trombado'", o olhar que eu odiara por décadas. A fiz adormecer, doce querida.
"Desculpe-me, não o faria se o egocentrismo fosse menor!"

Ele está lambendo os lábios, e os respingos de sangue em sua camiseta branca encardida dizem indiretamente um pouco do que aconteceu. E afinal, o que houve?

"Estive faminto, não por alimentos, mas sim por a presença nessas constantes ausências, a sua. Faminto por carinho, então cortei-lhe os braços e poderei viver em teus abraços, confortei-me nos mesmos; Mastiguei o coração e engoli a seco algumas lembranças;"

Minhas lágrimas se misturam com o sangue empoçado na sarjeta, eu senti sua falta, mas hesitei em lhe procurar, você não merecia minhas noite a claro, e a partir de hoje as passaremos juntos.
Viver da apatia e carregar ao cérebro a imagem de seu belo sorriso, e na mochila a arcada dentária dele também.
 A companhia paga por chantagem não o satisfez, e o amor que faltou o fez enlouquecer. Ele fora um médico bem sucedido mas vive jogado em bares e albergues enquanto a loucura o corrói, ele pensa ser um cantor faminto, vocalista faminto de saudades.

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